O escândalo envolvendo o Banco Master revelou uma ampla rede de conexões políticas, institucionais e empresariais associadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, que, agora, segue preso em Brasília por decisão da maioria dos membros da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). A lista de conexões nos Três Poderes é grande, além dos criminosos citados pelo ministro relator do processo, André Mendonça, em seu voto pela manutenção da prisão do banqueiro em Brasília. A tudo isso, se soma a provável delação premiada de Vorcaro, com a troca de defesa.
Para o lugar do criminalista Pierpaolo Bottini, foi escolhido o advogado José Luís de Oliveira Lima, que também defendeu figuras políticas de destaque, como o petista e ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e o ex-ministro de Bolsonaro Walter Braga Netto, preso e condenado por participação na trama golpista. Roberto Podval também deve deixar a causa nos próximos dias.
O caso, que inicialmente era um escândalo financeiro, tem mostrado envolvimento até com criminosos perigosos, como o “Sicário”, apelido de Felipe Mourão, que mantinha relação direta de prestação de serviços a Vorcaro, “atuando como responsável pela execução de atividades voltadas à obtenção de informações sigilosas, monitoramento de pessoas e neutralização de situações consideradas sensíveis aos interesses do grupo investigado”, conforme mostra a íntegra do voto de Mendonça.
O texto revela detalhes das descobertas da Polícia Federal nas investigações da Operação Compliance Zero, que culminou na liquidação extrajudicial do Master pelo Banco Central, em novembro de 2025, e aponta vários crimes atribuídos a Vorcaro identificados pela Polícia Federal (PF), como a) Crimes contra o sistema financeiro nacional; b) Crimes contra a administração pública; c) Crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro; d) Crimes contra a administração da Justiça, citando como exemplos: coação no curso do processo, fraude processual e denunciação caluniosa.
“As provas documentais, registros de mensagens e fluxos financeiros analisados pela autoridade policial até o momento indicam que os investigados atuavam de forma estruturada e com divisão de tarefas, característica típica de organizações criminosas”, escreveu o relator. Ele ainda destacou que a manutenção da prisão preventiva de Vorcaro evitará uma dilapidação do patrimônio do banco, uma vez que a Justiça bloqueou R$ 2,2 bilhões em depósitos de Vorcaro na conta do pai dele.
O caso Master passou a ocupar o centro dos debates em Brasília e provocou uma sequência de acusações cruzadas entre governistas e oposicionistas, que disputam a narrativa sobre quem teria maior proximidade com o empresário e com as operações sob suspeita.
Desde o ano passado, quando a situação da instituição financeira entrou em colapso culminando na liquidação extrajudicial, o Master passou a ser alvo de investigações. Documentos, mensagens e apurações oficiais passaram a mencionar, direta ou indiretamente, lideranças políticas de diferentes espectros ideológicos.
A lista de nomes citados inclui congressistas, governadores, prefeitos e ex-integrantes do primeiro escalão de governos federais. O alcance das relações também chegou ao Judiciário. Entre os nomes citados em investigações e documentos relacionados ao caso estão os ministros do STF Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, o que ampliou a repercussão política do episódio e acirrou a tensão entre diferentes atores institucionais.
Além disso, a proximidade de ministros da Suprema Corte com Vorcaro tem feito um estrago na imagem da instituição. Dados da mais recente Pesquisa Genial/Quaest corroboram a deterioração da imagem das instituições em meio ao escândalo do Master, e, nesse cenário, o Supremo é o que está sendo mais afetado, pois a desconfiança na Corte é a maior da história.
“A maioria dos entrevistados acha importante votar em um senador que esteja comprometido a votar o impeachment de um ministro do STF”, escreveu o cientista político Felipe Nunes, CEO da Quaest, em postagem nas redes sociais. De acordo com ele, as consequências eleitorais do escândalo do Master são bem claras, porque 38% dos entrevistados disseram que evitarão votar em um candidato envolvido no escândalo.
As investigações da PF também revelaram interlocuções do banqueiro com integrantes do primeiro escalão da política nacional. Vorcaro chegou a contar com consultoria do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega em temas ligados ao banco.
No âmbito local, o empresário também teria mantido conversas com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, durante as tratativas para a tentativa de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). A PF identificou R$ 12,2 bilhões em fraudes do Master na venda de carteira de crédito podre ao BRB. (Com informações do Correio Braziliense)
