Há uma estranha contradição na maneira como lidamos com o tempo. Cuidamos do dinheiro, fazemos contas, planejamos investimentos, lamentamos aquilo que gastamos inutilmente. Com o tempo, porém, somos quase perdulários. Distribuímos horas como se fossem renováveis. Adiamos encontros, projetos, viagens, conversas. Deixamos para depois aquilo que importa, talvez porque exista dentro de nós uma crença silenciosa de que sempre haverá um depois.
Não haverá.
A frase soa incômoda, mas talvez seja justamente por isso que mereça ser dita. A vida tem uma característica que nenhum patrimônio possui: recebemos um saldo cujo tamanho desconhecemos. Sabemos apenas que ele diminui todos os dias.
Sêneca percebeu isso há quase dois mil anos. Em Sobre a brevidade da vida, sustentou que não recebemos necessariamente pouco tempo; desperdiçamos muito daquele que recebemos. Sua observação continua desconcertantemente atual. Somos capazes de reagir com indignação quando alguém nos toma dinheiro, mas permitimos com surpreendente facilidade que nos tomem tardes, dias e anos. E, pior, muitas vezes somos nós mesmos os responsáveis pelo desperdício.
Trabalhamos para viver melhor e, não raro, gastamos a vida inteira preparando as condições para começar a viver. Trocamos tempo por dinheiro, dinheiro por conforto, conforto por segurança. Nada disso é necessariamente ruim. O problema começa quando os meios ocupam o lugar dos fins. Quando percebemos, conquistamos quase tudo aquilo que imaginávamos necessário, exceto a possibilidade de voltar aos anos em que estávamos ocupados conquistando.
Talvez por isso Marco Aurélio insistisse tanto no presente. Não porque o passado seja irrelevante ou porque o futuro não mereça planejamento, mas porque existe apenas um lugar onde a vida efetivamente acontece: agora. O passado sobrevive na memória. O futuro, na expectativa. A existência concreta cabe nesse intervalo minúsculo que chamamos presente e que desaparece no exato momento em que tentamos segurá-lo.
Montaigne levou essa percepção ainda mais longe ao recuperar a antiga ideia de que filosofar é aprender a morrer. À primeira vista, parece uma sentença melancólica. É justamente o contrário. Aprender a morrer significa retirar da morte o poder de nos surpreender e, sobretudo, deixar que sua inevitabilidade ilumine nossas escolhas. Quem sabe que o tempo acaba talvez aprenda a distinguir melhor aquilo que merece tempo daquilo que apenas o consome.
Heidegger daria a essa intuição uma formulação ainda mais radical. Somos seres finitos, lançados numa existência que ninguém pode viver em nosso lugar. A consciência da morte não deveria, portanto, nos paralisar. Deveria nos devolver à responsabilidade pela própria vida. Afinal, cada escolha que fazemos elimina outras possibilidades. Escolher onde estar é também escolher onde não estaremos. Dedicar anos a alguma coisa significa decidir, ainda que silenciosamente, a que outras coisas esses mesmos anos não serão dedicados.
É aí que a finitude deixa de ser apenas uma tragédia e revela seu paradoxo: talvez parte do valor da vida venha justamente do fato de ela acabar.
Se tivéssemos dias infinitos, poderíamos adiar indefinidamente um abraço, uma reconciliação, uma viagem, uma visita aos pais. Sempre haveria amanhã. Mas não há essa garantia. Há encontros que não se repetem. Filhos crescem. Amigos partem. Pais envelhecem. Lugares desaparecem. Nós mesmos mudamos. Há portas que permanecem abertas durante algum tempo e depois simplesmente deixam de existir.
Isso não significa que devamos transformar a existência numa angustiante contabilidade de horas. Seria outro modo de desperdiçá-la. Epicuro já advertia contra uma vida submetida ao medo da morte. Saber que morreremos deveria tornar a vida mais intensa, não mais apavorada.
Talvez, então, a metáfora do preço precise de uma pequena correção. O tempo não é exatamente a moeda com que pagamos pela vida. O tempo é a matéria de que a vida é feita.
Uma tarde conversando com alguém que amamos não foi uma tarde perdida. Foi vida. Uma caminhada sem finalidade, um livro lido devagar, uma mesa cercada de amigos, uma conversa com um filho, o silêncio compartilhado com quem já não precisa preencher todos os espaços com palavras: nada disso precisa produzir alguma coisa para justificar o tempo empregado. Porque viver não é necessariamente produzir.
No fim, talvez a pergunta decisiva não seja quantos anos teremos. Ninguém conhece essa resposta. A pergunta possível é outra: o que estamos fazendo com os dias que já sabemos possuir?
O relógio continuará andando, indiferente às nossas prioridades. Não distingue uma hora memorável de uma hora desperdiçada. Essa distinção pertence exclusivamente a nós.
E talvez seja esse o verdadeiro preço da vida: descobrir, enquanto ainda há tempo, que algumas coisas podem ser recuperadas, substituídas ou recomeçadas. O tempo, não.
Amílcar Fagundes Freitas Macedo – gabinete-amilcar@tjmrs.jus.br
