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“Tenho medo do meu vizinho”, diz artista sobre os crimes de ódio nos EUA, que têm minorias como alvo

John Gascot é membro ativo da comunidade LGBT dos EUA. (Foto: Reprodução)

“Ei, idiota… a eleição acabou… você perdeu de todos os lados”, dizia a carta que chegou à caixa de correio de John Gascot. Também acusava ele e seu marido de viverem em uma “casa gay”, decorada com uma bandeira de arco-íris para “provocar estranhos”. A correspondência era anônima.

Três anos atrás, Gascot, que é artista e membro ativo da comunidade LGBT se mudou com seu companheiro de 20 anos para o bairro onde vivem em São Petersburgo, na Flórida, e sempre sentiu que “as pessoas eram muito acolhedoras com os vizinhos”. Apesar disso, a “carta de ódio” recebida em dezembro, poucas semanas após a eleição de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, os deixou em alerta.

“Nós queremos viver com medo dos nossos vizinhos? Há definitivamente um elemento de medo. Tenho medo de meu vizinho. Nós consideramos nos armar para nos proteger”.

Atitudes desse tipo estão se tornando mais frequentes em todo o país, somando 11% de todos os “crimes de ódio”.

Muitos culpam o clima político atual nos Estados Unidos por essa escalada do ódio. “Desde as eleições, as pessoas sentem-se encorajadas a manifestar seu ódio ou desagrado”, diz Gascot.

Violência avança

No fim de semana passado, confrontos em uma manifestação de supremacistas brancos em Charlottesville, na Virgínia, chocaram os Estados Unidos – e o mundo – em um dos episódios recentes mais violentos no país. Uma mulher foi morta quando um carro avançou sobre pessoas que participavam de um protesto anti-racista.

Crimes de motivação ideológica estão em destaque nos Estados Unidos desde a vitória de Trump, em novembro de 2016. Um estudo do Centro para Estudo de Ódio e Extremismo, da California State University, aponta um aumento de dois dígitos no número de casos em muitas regiões metropolitanas.
Na cidade de Nova York, foi de 24%, o maior em mais de uma década. Em Chicago, 20%. Na Filadélfia, 50%. Em Washington, 62% – o mais acentuado entre as 25 maiores cidades pesquisadas.

A lista de ocorrências vai de ataques físicos a grafites racistas, depredação de sinagogas e cemitérios judeus, insultos contra imigrantes e afro-americanos. Abusos contra muçulmanos, lésbicas, gay, bissexuais e transgêneros contribuem muito para esse crescimento.

Apesar das conclusões do estudo serem preliminares e parciais, elas permitem vislumbrar uma tendência que também foi observada por outras pesquisas.

A Liga Anti-Difamação relata, por exemplo, que o número de incidentes anti-semitas quase dobraram no primeiro trimestre de 2017. Outros especialistas falam em um aumento de 106% nos episódios de ódio nas escolas.

‘Ódios Unidos da América’

Ânimos inflamados durante a campanha presidencial, que foi marcada por temas raciais, bem como uma disposição das vítimas de não recuarem podem estar por trás do aumento, segundo pesquisadores.

Ao destacar temas como raça, religião e nacionalidade, o tom da última campanha presidencial americana pode ter influenciado os crimes de ódio, levando à ação “indivíduos de motivações diversas, desde fanáticos hardcore até aqueles que apenas buscam uma emoção”, opina o diretor do Centro de Estudo do Ódio e Extremismo, Brian Levin.

O pesquisador não está sozinho ao apontar uma relação entre as explosões de violência e a retórica polarizada de Trump.

“Ódio e extremismo ganharam muita atenção”, escreve Benjamim Henning, professor de Geografia da Universidade da Islândia e pesquisador da Universidade de Oxford, no Reino Unido. “A eleição de Trump também se deve a sua retórica, que aproximou extremistas de direita dos Estados Unidos.

O Southern Poverty Law Center (SPLC), organização que monitora extremistas nos Estados Unidos, contabilizou 1.094 incidentes de ódio entre novembro de 2016 e fevereiro de 2017, como parte do projeto #ReportHate (denuncie o ódio, em inglês).

Destes, 37% se referiram abertamente a Trump, seus slogans de campanha ou políticas. Outro esforço de rastreamento do site de notícias ThinkProgress aponta que esse número seria de 42%. O fato de que diferentes organizações americanas sentem que há uma necessidade de uma base de dados de crimes de ódio é um sinal dos tempos.

O SPLC foi fundado por advogados de direitos humanos para monitorar grupos supremacistas brancos como a Ku Klux Klan, mas depois ampliou seu alcance. Agora, mapeou todos os grupos de ódio nos Estados Unidos: eram 917 em atuação no país em 2016. Dois anos antes, eram 784. O Estado da Califórnia (79) tem o maior número, seguido pela Flórida (63).

Os crimes de ódio são difíceis de rastrear. O FBI, que deveria acompanhar essas ocorrências, computa certa de 6 mil casos anualmente. Mas um relatório do Escritório de Estatísticas de Justiça, de junho, estima 250 mil. Por que essa diferença?

Uma das razões, dizem os especialistas, é que as agências legais não têm de se reportar ao FBI. Então, os números do FBI podem estar desatualizados. Além disso, 46% das vítimas não procuram a polícia. (BBC)

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