Trump não sabe bem o que vai fazer com o Irã. Como pode uma potência como os EUA se meter numa encrenca daquela envergadura, sem medir direito as consequências, como faria qualquer tiranete de república bananeira?
É daquelas tramas que se sabe como começa, mas não se sabe como termina. Trump se vale das suas bravatas surradas para anunciar que no campo do combate está tudo dominado, e de que o país dos aiatolás tem como única alternativa a “rendição incondicional”. Claro que ninguém o leva a sério.
É possível que se tenha deixado levar pelos maus conselhos de algum dos seus assessores sabujos; ou, quem sabe, tenha mesmo (mal) calculado que a parada estaria ganha em questão de semanas. Trump, autocentrado como é, talvez bote fé no poder do pensamento positivo. Os fatos, contudo, teimam em não acontecer do modo como ele descreve, e tem de conviver com a dura realidade: o Irã se meteu numa enrascada.
Era pretensão demais imaginar que os iranianos iriam se render em tão pouco tempo. Imediatamente encetaram uma reação, enviando mísseis e drones para bombardear Israel e outros países aliados dos americanos.
O Irã é uma ditadura de fanáticos religiosos, que falam, agem e reagem em nome de Deus – Alá, que eles, capazes de toda violência, patrocinadores do terrorismo, costumam chamar pelo epíteto de “Misericordioso” – que acreditam no martírio como forma de alcançar o Paraíso. O poder é exercido com mão de ferro pela Guarda Islâmica Revolucionária, uma milícia de fundamentalistas, armada até os dentes, inclusive com artefatos sofisticados, que aterroriza a população e persegue os dissidentes, e ataca inimigos no exterior – EUA e Israel à frente.
O regime de terror está assentado em bases amplas, espalhadas por todo o país, e com aliados importantes em Gaza, no Líbano, na Síria, no Iraque e em certos países da África. Não é inimigo disperso. Funciona como um bloco monolítico, está na área há décadas, tem um comando centralizado, imposto pela força, é verdade, mas articulado e eficaz. O Irã não é a Venezuela.
Seria necessário que os ataques dos EUA e Israel viessem acompanhados de uma revolta interna, da oposição que se movimenta com certa desenvoltura, mas parece longe de empolgar o poder, ganhar os corações e mentes para debelar o inimigo – o regime dos aiatolás.
Os EUA não conseguiram nem mesmo liberar o estreito de Ormuz, em mar territorial iraniano, por onde transita 20 por cento do petróleo do mundo. O Irã, acintosamente, diz que por ali não passam navios com bandeiras de aliados dos EUA e Israel.
Não são desprezíveis as chances de uma empreitada bélica, daquelas em que os EUA afundam o pé no lodaçal da guerra e no banho de sangue, por longos e intermináveis meses, como no Vietnã, no Afeganistão e no Iraque – até que os americanos despertem para a insanidade e de dentro para fora, deem um basta na aventura tresloucada.
Que escolha desastrosa fez o povo americano! Donald Trump é um governante intratável e intragável, arrogante, inculto, ignorante em história e diplomacia, errático, mentiroso compulsivo e dado a bravatas – responsável direto pela atual instabilidade do mundo.
(titoguarniere@terra.com.br)
