O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que integrantes do governo Donald Trump tomaram partido na eleição brasileira e criticou ameaças de aliados de Flávio Bolsonaro de promover uma “faxina” no Itamaraty. Para o chanceler, medidas que busquem desarticular a diplomacia brasileira seriam prejudiciais ao interesse nacional.
A poucos dias do segundo turno, Vieira declarou, em entrevista ao Estadão, que o povo brasileiro deve decidir nas urnas se houve interferência estrangeira no processo eleitoral. Segundo ele, autoridades americanas manifestaram preferência política, mas a avaliação sobre uma eventual ingerência cabe aos eleitores.
O ministro também criticou a proposta de criar um comitê para coordenar posições com os Estados Unidos em caso de vitória de Flávio Bolsonaro (PL). Para Vieira, a iniciativa seria incomum nas relações diplomáticas e poderia representar uma submissão antecipada a um governo estrangeiro.
“Em uma democracia, você não ameaça, você dialoga, conversa, negocia”, afirmou. Com 50 anos de carreira diplomática, o chanceler classificou como péssima qualquer tentativa de destruir ou desarticular a estrutura do Itamaraty.
Vieira evitou comentar diretamente a atuação de Eduardo Bolsonaro, ex-deputado cassado que vive nos Estados Unidos e é apontado como um dos articuladores da política externa da campanha bolsonarista. “Eu tenho mais o que fazer. Eu não o conheço, não sei o que ele fala. Um sujeito que pede terra arrasada, que pede tarifa e tudo mais”, declarou.
Política externa e soberania
O chanceler rejeitou as acusações de que a política externa do governo Lula tenha sido conduzida por critérios ideológicos. Segundo ele, o Brasil manteve relações com países de diferentes orientações políticas, priorizando o interesse nacional.
Vieira também negou que o País esteja isolado internacionalmente, apesar das mudanças políticas na América Latina. Ele ressaltou que o governo continuou dialogando com países governados pela direita e negociando com os Estados Unidos mesmo após a imposição de tarifas comerciais.
Sobre a Argentina, o ministro criticou as declarações do presidente Javier Milei contra o sistema eleitoral brasileiro. Para Vieira, os ataques são injustificados e representam uma agressão à democracia e à Justiça Eleitoral do Brasil.
O chanceler afirmou ainda que o modelo econômico argentino, defendido por setores da oposição brasileira, não deve servir de referência para o País, argumentando que produziu pobreza e recessão.
Relações internacionais
Vieira defendeu a manutenção do diálogo com países como Argentina e Israel, mesmo diante de divergências políticas. Segundo ele, as relações diplomáticas devem respeitar o direito internacional e as normas de convivência entre as nações.
Sobre Nicarágua, Cuba e Venezuela, o ministro negou que a atuação brasileira tenha sido motivada por alinhamento ideológico. Ele argumentou que o Brasil buscou defender seus interesses e manter canais diplomáticos, sem deixar de manifestar críticas quando necessário.
O chanceler também justificou a decisão brasileira de não participar do Escudo das Américas, iniciativa liderada pelos Estados Unidos para combater o narcotráfico. Para ele, classificar organizações criminosas brasileiras como terroristas prejudicaria a cooperação entre as polícias e abriria espaço para uma abordagem militar considerada inadequada.
Vieira afirmou que o Brasil apresentou duas propostas aos Estados Unidos para intensificar o combate ao crime organizado transnacional, mas ainda aguarda respostas.
Futuro do Itamaraty
Questionado sobre possíveis reformas na diplomacia em um eventual governo Flávio Bolsonaro, Vieira disse não conhecer propostas concretas, atribuindo as críticas à estrutura do Ministério das Relações Exteriores ao debate eleitoral.
Ele defendeu a atuação dos embaixadores e destacou que o Itamaraty é uma instituição de Estado, cuja estrutura deve ser preservada independentemente do governo no poder.
Para o ministro, mudanças que comprometam a carreira diplomática prejudicariam os interesses brasileiros, especialmente em um cenário internacional de enfraquecimento do multilateralismo.
Vieira afirmou que, em caso de mudança de governo, a transição deverá ocorrer por meio do diálogo, como prevê a democracia. Sobre a possibilidade de permanecer no cargo, disse que prefere aguardar o resultado das eleições. (Com informações de O Estado de S.Paulo)
