O empresário David Neeleman, 55 anos – que venceu o processo de privatização da portuguesa TAP – está perto de se tornar dono de sua quinta companhia aérea. A TAP será a primeira aquisição de Neeleman. Nas demais – as americanas Jet Blue e Morris Air, a canadense West Jet e a brasileira Azul – ele foi um dos fundadores. Vendeu todas as empresas e, até a compra da TAP se concretizar, mantinha apenas o controle da Azul.
Filho de um jornalista americano que era correspondente no Brasil, Neeleman nasceu em São Paulo, mas se mudou para os Estados Unidos aos 7 anos. Na infância, gostava das brincadeiras de meninos da época, como andar de carrinho de rolimã.
Ele voltou ao País na adolescência como missionário Mórmon e chegou a fazer pregações em comunidades carentes do Rio de Janeiro e de capitais do Nordeste – foi dessa experiência que aprendeu a falar português.
O executivo começou a carreira nos Estados Unidos, vendendo pacotes turísticos em uma agência de viagens.
Pai de nove filhos, Neeleman mora nos Estados Unidos, mas vem ao Brasil a cada 15 dias, quando dá expediente na Azul. Segundo pessoas próximas, ele gosta de conversar com os funcionários, almoça no refeitório e aprecia churrasco. O executivo também costuma voar nos aviões da companhia para avaliar a prestação do serviço e aproveitar para falar com os passageiros, com ligeiro sotaque.
A certidão de nascimento brasileira lhe abriu portas, em 2008, para montar uma empresa aérea no Brasil, um negócio que tem restrições ao capital estrangeiro. A Azul chegou ao mercado voando com aviões da Embraer, montou uma base operacional no aeroporto de Viracopos (SP). De lá, montou um hub nacional, avançando em direção ao interior do País e, recentemente, ao mercado americano.
Segredo do sucesso.
O segredo do sucesso de Neeleman mistura, além de visão estratégica, um bom trânsito no mercado financeiro e um dom especial para se relacionar bem com governos locais.
Somando sua participação e as dos investidores que representa, o empresário tem 67% das ações ordinárias da Azul. Com uma frota de 140 aeronaves e voando para cem destinos, a empresa é a terceira do mercado doméstico.
Todos iguais.
O empresário é um ativo membro de sua igreja, a Mórmon. Pelas suas contas, batizou cerca de 200 brasileiros. Além disso, já doou milhares de dólares para obras de caridade e para ajudar mórmons pobres a estudar e progredir. Para Neeleman, sua experiência missionária o levou a pôr de lado as diferenças de classe e a enxergar as pessoas. “Ser missionário me ensinou a tratar todos por igual”, afirmou, certa vez. “Eu tenho desdém por pessoas que se sentem superiores às outras.”
Déficit de atenção.
Neeleman também é um assumido e orgulhoso portador de déficit de atenção. Entre outros sintomas, o distúrbio torna a pessoa hiperativa. Para ele, porém, o déficit traz mais benefícios do que males. Ele já declarou que sua mente hiperativa o leva a buscar, toda hora, formas de melhorar os serviços que presta. Trabalhador incansável, checa e-mails a todo instante, dorme cerca de quatro horas por noite e telefona para executivos de madrugada.
Quem o conhece sabe que outra característica de quem sofre de distúrbio de atenção é que só pode se concentrar em uma coisa por vez. E o próprio Neeleman admite que, neste caso, tem a sorte de focar naquilo de que mais gosta: aviação.
