Um cadete da Academia Militar dos Estados Unidos, em West Point (NY), que usou uma camiseta com a famosa estampa de Che Guevara em sua cerimônia de formatura, foi expulso das forças armadas americanas. Spenser Rapone, de 26 anos, foi dispensado por “conduta imprópria”. Depois de se formar, ele serviria como segundo-tenente na infantaria do Exército. Ele, provavelmente, não poderá se alistar nunca mais nem receber benefícios reservados para veteranos.
Os militares começaram uma investigação contra Rapone em outubro do ano passado, depois de ele postar fotos pró-comunismo nas redes sociais, mostrando que usou uma camiseta do guerrilheiro argentino por baixo do uniforme. Outra imagem mostrava a inscrição “o comunismo vai vencer” escrita na parte interna de seu quepe.
As fotos viralizaram e Rapone foi apelidado de “cadete comunista”, o que gerou indignação entre os militares e motivou a investigação. O Exército encontrou dezenas de frases comunistas na página do Twitter do jovem. Rapone compartilhava fotos dizendo que (Karl) Marx estava certo. Em entrevistas, Rapone disse que se considera um socialista revolucionário. Ele foi convidado para participar da conferência Socialismo 2018 em Chicago, nos EUA, em julho.
Karl Marx
Karl Marx, o ideólogo da Revolução Russa, é relevante hoje em dia? Ainda que o filósofo alemão tenha vivido e trabalhado no século 19, uma época bem diferente da nossa, é indiscutível que dois de seus textos, O Manifesto Comunista (1848), redigido junto com o também filósofo alemão Friedrich Engels, e O Capital (1867), tiveram em um momento determinado da história uma grande influência política e econômica em muitos países e sobre milhões de pessoas.
O surgimento da URSS (União Soviética) após a Revolução Russa foi um exemplo disso. Ninguém nega que o bloco socialista marcou boa parte do século 20, no entanto, também é um fato que ele desmoronou e que o comunismo não se materializou tal qual propuseram Marx e Engels, com o capitalismo vigorando em quase todo o planeta atualmente.
Mas podemos dizer que todas as ideias de Marx estão obsoletas? Ou é possível elencar algumas que se tornaram realidade e seguem vigentes até hoje? A seguir, quatro exemplos.
1. O ativismo político
Marx descreve a luta de classes na sociedade capitalista e como o proletariado acabaria tomando o poder das elites dominantes em todo o mundo. O Capital, sua principal obra, é uma tentativa de indicar essas ideias por meio de fatos que podem ser verificados e de análises científicas.
Foi uma mensagem poderosa em um mundo pleno de opressão e desigualdade. “A experiência pessoal de Marx, que viveu na pobreza, conferiu uma grande intensidade à sua análise, que recorreu à Filosofia contra o monstro capitalista que escravizava os seres humanos”, explica um dos seus mais renomados biógrafos, o britânico Francis Wheen.
2. A recorrência de crises econômicas
Marx questionou a ideia de que o capitalismo se autorregulava. Para ele, não havia uma “mão invisível” que trazia ordem às forças do mercado, como havia postulado o economista e filósofo escocês Adam Smith, considerado o “pai” do capitalismo, em A Riqueza das Nações (1776).
Marx argumentava que o sistema capitalista estava condenado a períodos de crises recorrentes inerentes a eles – hoje, os economistas falam em recessões. “Ainda que ele não tenha sido o único a falar disso, sua ideia original era que cada turbulência levaria a outra pior e assim sucessivamente até a destruição do capitalismo”, explica Albrecht Ritschl da London School of Economics, no Reino Unido.
3. Ganhos desmedidos e monopólios
Um aspecto importante da teoria de Marx é a chamada mais-valia: o valor criado pelo trabalhador com sua força laboral. O problema, segundo o pensador alemão, é que os donos dos meios de produção se apropriam da mais-valia e tentam maximizar seus ganhos às custas do proletariado.
Assim, o capital tende a concentrar-se e centralizar-se em poucas mãos e, em contrapartida, isso leva ao desemprego e a uma depreciação dos salários dos trabalhadores. É possível ver isso hoje em dia.
4. A globalização e a desigualdade
Biógrafos de Marx, como Francis Wheen e outros estudiosos de sua obra, dizem que ele se equivocou com sua ideia determinista de que o capitalismo sepultaria a si mesmo ao criar seus próprios coveiros. Mas ocorreu o contrário: com a queda da URSS, o capitalismo não apenas saiu fortalecido como se expandiu pelo mundo.
Mas, se Marx falhou em sua previsão, não errou nas fortes críticas à internacionalização do capitalismo. Em O Manifesto Comunista, ele argumenta que a expansão global do capitalismo se tornaria a principal fonte de instabilidade do sistema internacional, como demonstrariam uma série de crises financeiras nos séculos 19 e 20.
