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Um desembargador de São Paulo antecipou a sua aposentadoria para trabalhar com o ex-presidente da Petrobras Aldemir Bendine, preso pela Operação Lava-Jato

Aldemir Bendine foi preso em julho deste ano. (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Em março de 2015, o desembargador Armando Sérgio Prado de Toledo, de 62 anos, surpreendeu os colegas do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) ao antecipar em 11 anos sua aposentadoria. Três dias depois, ele distribuiu no tribunal cartões de visita de sua nova atividade, a de “consultor” do então presidente da Petrobras, Aldemir Bendine.

Bendine foi preso em julho na Lava-Jato, acusado de receber propina da Odebrecht quando era presidente do BB (Banco do Brasil).

Toledo diz que foi “surpreendido” ao saber desses fatos pelos jornais. E que não tem mantido contato com Bendine desde maio de 2016, quando ambos deixaram a Petrobras.

Ex-diretor de Apamagis (Assuntos Legislativos da Associação Paulista de Magistrados), o desembargador tratava de interesses do tribunal junto a órgãos públicos.

Sua rápida contratação pela estatal foi atribuída por colegas, na época, a possível retribuição pela intermediação de contratos do tribunal com o BB – o que é negado pelo tribunal, pelo banco e pelo magistrado aposentado.

Ele participou da solenidade de assinatura de dois convênios do TJ-SP com o BB.

Ex-diretor da Escola Paulista da Magistratura, Toledo deixou a toga desgastado.

Um mês antes, o jornal Folha de S.Paulo revelara que ele retardou a tramitação de uma ação penal contra o ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Barros Munhoz (PSDB), supostamente para beneficiar o parlamentar tucano com a prescrição.

Quando o desembargador José Renato Nalini foi eleito presidente do TJ-SP, em 2013, Toledo disputou o cargo de corregedor-geral. Ficou em último lugar, possível reflexo do caso Munhoz.

Nalini foi corregedor e, na presidência, chamava a seu gabinete magistrados com problemas de desempenho e os aconselhava a antecipar a aposentadoria. A aposentadoria de Toledo foi vista como fruto de “livre e espontânea imposição”, no dizer de um colega.

Ao se despedir do tribunal, Toledo afirmou que sua contratação havia sido recomendada pela então presidente Dilma Rousseff.

Em nota, a Petrobras anunciou que Toledo seria consultor da presidência em “matérias relacionadas ao seu histórico profissional e acadêmico na área jurídica”.

Segundo a revista Piauí, entre outras atividades, Toledo realizou reuniões com fornecedores da Petrobras e cuidou da interlocução com o Congresso. Discutiu com deputados “a flexibilização da lei anticorrupção, para que fornecedores da estatal envolvidos na Operação Lava-Jato pudessem voltar a trabalhar para a companhia”.

Outro lado

“Em momento nenhum me foi questionada qualquer situação quanto aos fatos que estão sendo investigados, no que toca à pessoa de Aldemir Bendine”, afirma o desembargador aposentado Armando Sérgio Prado de Toledo.

“Desde o final de maio de 2016, ao me retirar da Petrobras, não mais tive contato com a pessoa dele. Estou tomando conhecimento das ocorrências apenas agora, pelas notícias de jornais e televisão”, diz Toledo.

“Tenho exercido a advocacia, observada a quarentena imposta a magistrados aposentados.”

O TJ-SP diz que os contratos do tribunal “não foram alvo de questionamento ou reexame”. “O contrato de gerenciamento de depósitos judiciais, de acordo com a lei, só pode ser realizado por bancos oficiais”, afirma. (Folha de S.Paulo)

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