Simone, Carlinho, Marquinho, Ninho, Joclecio, Dude, Beto e Preguinho… Os nomes, ao lado do valor ‘20’, constam de uma suposta ‘lista de compra de votos’ apreendida em 2014, pela Polícia Civil de Sergipe, com uma correligionária do líder do governo Temer no Congresso, André Moura (PSC). Com ela, que foi flagrada em grampo em tratativas com eleitores, também foram encontrados panfletos, dinheiro e santinhos.
Para a ‘Neide’, teriam bastado R$ 100 para arrecadar ‘três votos’. O ’emprego do Tio Zé’ renderia quatro votos. O ‘preguinho’, a ‘Gilmara’, teriam topado votar nos candidatos indicados por ‘dois sacos de cimento’, de acordo com a lista, conforme revelou o blog de Fausto Macedo, do jornal O Estado de S.Paulo.
O documento foi encaminhado em junho à ministra Rosa Weber, do STF (Supremo Tribunal Federal), que conduz inquérito sobre suposto crime eleitoral atribuído ao parlamentar e o senador Eduardo Amorim (PSDB) por crime eleitoral. Em primeira instância, também é alvo da mesma investigação o deputado estadual de Sergipe Luciano Pimentel (PSB).
Amanda Mara Souza Chagas, funcionária pública de Carira, interior de Sergipe, foi flagrada em grampos telefônicos em suposta negociação de compra de votos para os três parlamentares. Em 2014, ela foi interceptada em inquérito relativo a supostos crimes de pedofilia e prostituição infantil na região de Itabaiana, interior do Estado.
Com a quebra de sigilo telefônico, a Polícia Civil constatou que investigados também agiam em outras duas cidades sergipanas supostamente para compra de votos.
Uma delas era Carira, no sertão de Sergipe, que tem pouco mais de 21 mil habitantes e representa o 47º lugar no ranking de Índice de Desenvolvimento Humano do Estado. No Brasil, está em 4391º de um total de 5.565 cidades à época do Censo de 2010.
Alvo de buscas e apreensões, ela chegou a ser presa em flagrante. Com ela, foram apreendidos R$ 950, dez nomes de folhas que atrelavam valores a supostos eleitores. Também havia material de campanha.
Ela é parente do secretário municipal de Obras de Carira, Gabriel Chagas, também investigado, com quem mantinha contato recorrente e chegou a falar de uma ‘lista de eleitores’ e de pagamentos a parte deles.
Gabriel aparece prestando diversas mensagens de apoio a André Moura (PSC) e também em agendas oficiais do deputado, que hoje é candidato ao Senado.
Voto por dentes
As supostas compras de voto se escancaram em ligações telefônicas entre Amanda e eleitores da cidade. Uma eleitora de nome ‘Daniela’ liga para Amanda e fala ‘ô gatinha cadê você com meus dentes?’. Amanda pergunta com quem está falando. Daniela identifica-se. Amanda fala ‘e seus dentes não estão na sua boca, não?’.
Daniela diz ‘mulher eu tô sem comer o que preste. Mulher deixe eu dizer Amanda, eu tenho já um pouquinho e eu fui e perguntei o preço é R$ 200,00 para colocar os dentes, me dê uma ajudinha que eu intero o outro’.
Amanda pergunta ‘de quanto?’. Daniela diz ‘pode deixar que eu vou votar em seu candidato, não se preocupe não meu amor. Viu eu voto de certeza’.
Sigilo
A ministra Rosa Weber, do STF, autorizou abertura de investigação no dia 2 de março. Ela decretou a quebra de sigilo bancário da campanha do líder do governo Temer e das contas pessoais de outros investigados, como Amanda e Gabriel. Também são alvos da cautelar o senador Eduardo Amorim (PSB) e o deputado estadual Luciano Pimentel. Bancos já enviaram os dados Luciano Pimentel permanece investigado no âmbito da Justiça Eleitoral de Sergipe. Já André Moura (PSC) e Eduardo Amorim (PSDB), por terem foro, vão se defender no STF.
O advogado Márcio Conrado, que defende André Moura, destacou que seu cliente desconhece qualquer lista de compra de votos na eleição de 2014 em seu benefício e que as interceptações telefônicas são conversas particulares de terceiro sem qualquer conhecimento ou participação direta ou indireta do deputado.
A assessoria do senador Eduardo Amorim informou que o parlamentar não é interlocutor em nenhum diálogo interceptado. O senador é apenas citado em uma conversa de terceiros, que aconteceu em ambiente privado, sobre a qual não tem nenhum tipo de controle ou influência.
Luciano Pimentel indicou que nunca foi notificado sobre a existência desse procedimento, e por esse motivo não conhece as alegações, “apenas o pouco que acompanhei pela imprensa. Mas afirmo que não pratiquei qualquer ato ilícito em minha campanha eleitoral”.
Amanda Chagas não respondeu à reportagem e Gabriel Chagas disse que “Só vou me manifestar quando for notificado e tiver conhecimento dos autos”.
