A pandemia de covid-19 colocou o mundo diante de um dilema: com o número de casos explodindo e um estoque limitado de doses de vacinas, quem deve ser imunizado primeiro?
A absoluta maioria dos países têm optado por proteger antes os idosos e os profissionais de saúde que estão na linha de frente.
Mas a Indonésia fugiu à regra e adotou uma estratégia que priorizou os trabalhadores com idades entre 18 e 59 anos.
São duas abordagens com objetivos bastante diferentes — e não são as únicas possíveis.
Mas quais são os prós e contras de cada uma delas e o que é melhor fazer diante desta pandemia.
“Efeito dominó”
Em teoria, se houvesse doses em abundância, um programa de imunização universal poderia atingir estes objetivos ao mesmo tempo. Mas não é o caso agora.
Só um punhado de vacinas já teve sua eficácia comprovada em testes, e mesmo assim os fabricantes enfrentam limites na sua capacidade de produção.
Isso significa que, ao menos por enquanto, não há vacina para todo mundo. É preciso estabelecer prioridades.
Mas isso depende de qual de duas metas possíveis o plano de vacinação vai ter: reduzir os casos graves e mortes ou interromper a transmissão do vírus para acabar com a pandemia.
Se o objetivo for barrar a disseminação do coronavírus, em tese é melhor começar a vacinar os adultos em idade produtiva, como fez a Indonésia.
Esse teria sido o raciocínio por trás da decisão do país de vacinar os mais jovens primeiro, porque eles circulam mais.
“Nosso alvo é aqueles que provavelmente espalharão o vírus”, disse o professor Amin Soebandrio, que faz parte de um conselho que assessorou o governo indonésio.
Márcio Sommer Bittencourt, do centro de pesquisa clínica e epidemiológica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP) diz que, à primeira vista, essa parece ser uma boa estratégia, porque provocaria um “efeito dominó”.
Uma queda na taxa de transmissão inevitavelmente levaria a um menor número de casos, internações e mortes.
“Mas na prática não é tão simples”, diz Bittencourt.
Primeiro porque levaria algum tempo para esse efeito positivo se traduzir em menos óbitos entre os idosos, que continuariam morrendo enquanto isso.
Seria eticamente questionável permitir que um grupo especialmente suscetível a complicações por causa da covid continuasse vulnerável.
Ordem
Mas e quanto aqueles que já têm outras doenças, as chamadas comorbidades, e podem ter complicações se pegarem covid-19?
Se eles são também um grupo mais vulnerável, não deveriam ser priorizados também?
O Centro de Controle e Prevenção de Doenças da União Europeia (ECDC, na sigla em inglês), agência responsável pela vigilância epidemiológica na região, avaliou essa estratégia em um relatório recente e apontou que fazer isso traria um benefício significativo na prevenção de mortes.
Mas ponderou que implementar um plano de vacinação assim teria muitos desafios, como diagnosticar claramente todos que têm outros problemas de saúde. Ou estabelecer a ordem de prioridade entre as diferentes comorbidades.
Tudo isso tornaria a logística da imunização “complicada ou mesmo impossível”, disse o ECDC.
“É mais prático ter como alvo uma faixa etária, mesmo que o benefício de vacinar jovens adultos com comorbidades seja alto”, concluiu a agência.
Um estudo realizado por cientistas das universidades do Colorado, Harvard e Chicago, nos Estados Unidos, avaliou o efeito na prevenção de mortes ao conferir a prioridade para quatro faixa etárias — menos de 20 anos, 20 a 49 anos, 20 anos ou mais e 60 anos ou mais — ou vacinar a todos.
Os cientistas criaram modelos com base nos dados demográficos, taxa de infecção e eficácia de vacinas para nove países — Brasil, China, Polônia, África do Sul, Zimbábue, Espanha, Índia, Estados Unidos e Bélgica.
O estudo, publicado na revista Science, concluiu que, “em todos os países, aqueles com 60 anos ou mais devem ser priorizados para minimizar as mortes”.
