A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos após a derrota nas eleições abriu uma disputa de poder na direita brasileira, mas os potenciais nomes para esse posto ainda se equilibram entre se descolar da imagem de Flávio e não cortar laços com os aliados da família Bolsonaro. As apostas do bolsonarismo para manter a oposição fortalecida contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passam pela bancada do PL no Senado, que contará com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (DF), e pelo governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Embora Flávio tenha publicado carta na quarta-feira (28) afirmando que será a liderança da oposição no Brasil contra Lula, a reação entre aliados foi negativa. Bolsonaristas se mostram céticos quanto ao poder do senador de se manter como um líder da família Bolsonaro a distância e ironizam que ele faria uma atuação no modelo “home office”.
O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, disse na quinta-feira (29) que “não gostou” da carta, em linha com o líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), que chamou de “erro de confecção” a autodeclaração de Flávio como presidente, depois substituída pela designação “líder do Brasil”.
O senador eleito Carlos Bolsonaro (PL-SC) e o deputado federal eleito Jair Renan (PL-SC) tampouco são percebidos como potenciais articuladores da família que integram. Bolsonaristas avaliam que eles não têm “maturidade” ou capital político para ocupar a liderança do movimento.
Diante do vácuo, Tarcísio voltou a figurar como aposta de parte dos aliados de Flávio para assumir papel nacional. O governador foi incentivado por alas do Centrão, da direita e do setor produtivo a disputar a Presidência em 2026, mas recuou após Flávio anunciar que ele era o escolhido por Jair Bolsonaro.
Tarcísio admitiu a possibilidade de concorrer à Presidência em 2030, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo publicada na quinta-feira (29), enquanto aliados discutem como viabilizar uma candidatura sem romper com a família Bolsonaro. O governador, reeleito no primeiro turno com 62% dos votos válidos, afirmou que sua prioridade é “honrar o compromisso” com o Estado e condicionou o projeto nacional à avaliação do mandato e ao apoio do grupo político.
“E aí 2030 é outra conversa. A gente tem que ver qual é o cenário de momento e, claro, vou estar terminando o segundo mandato no Estado de São Paulo. Terminando bem o segundo mandato, obviamente, abre uma possibilidade”, disse, na entrevista.
Desde a derrota de Flávio, interlocutores de Tarcísio ouvidos sob reserva pelo Valor repetem que qualquer leitura de cenário agora pode ser precipitada e que o fortalecimento dele como presidenciável depende também do legado que ele será capaz de deixar para o Estado. Com isso, o segundo mandato do governador deve começar sob a pressão de concluir o que prometeu e avançar em áreas sensíveis, como segurança pública e educação.
Na entrevista ao Estadão, Tarcísio reforçou a ideia de que “a política seja sócia dos resultados”, ao defender a escolha de secretários de perfil técnico. A fala reflete uma avaliação, feita por auxiliares e conselheiros do governador, de que o eleitorado tem levado em conta resultados da gestão pública, e não só aspectos da pauta ideológica. Nesse sentido, a aposta é que Tarcisio à frente do Estado com maior orçamento e visibilidade política tem vantagem na comparação com outros aspirantes a herdar o espólio de Jair.
A eleição deste ano consolidou a aliança de Tarcísio com um grupo que vai além do bolsonarismo, agregando partidos como MDB, PP, União Brasil e PSD.
Em vídeo publicado na terça-feira (27), quando se manifestou pela primeira vez sobre o segundo turno presidencial, reconhecendo a vitória de Lula, o governador paulista fez um agradecimento a Flávio por ter “caminhado” ao lado dos que foram “tomados por um sentimento de mudança”. Tarcísio se afastou do movimento do senador para contestar o resultado e pedir anulação do pleito e adotou o mantra de que “a eleição passou”. Ele também discordou publicamente da fuga do senador.
O projeto de Valdemar Costa Neto e da cúpula do PL, por sua vez, é reforçar os movimentos para consolidar Michelle como liderança nacional do partido, retomando a presidência do PL Mulher. Parlamentares da legenda, contudo, têm dúvidas sobre a consolidação dela como uma alternativa viável para o Planalto. Outra ala da direita entende que Michelle demonstrou habilidade nestas eleições, ao conseguir eleger suas principais aliadas.
Em paralelo, não deverá haver espaço para ela assumir alguma posição de ascendência no Senado, seja a liderança do PL ou a da oposição. Parte dos integrantes da bancada do PL não tem interesse em alimentar o bolsonarismo e avalia que o movimento perdeu força após a derrota de Flávio e a fuga dele do Brasil.
A percepção de aliados de Michelle é que ela ganha força política com a saída de Flávio do país, e cresce como potencial herdeira do bolsonarismo. Fontes próximas dizem que a ex-primeira-dama demonstrou “maturidade” e “coerência política”, ao contrário de Flávio, que fugiu do país e já recuou de posicionamentos. “Ela tem um projeto próprio. Não vai ser fantoche de ninguém, tem pautas claras e vai crescer muito”, diz um interlocutor de Michelle.
Ela era o nome favorito de Valdemar dentro da família Bolsonaro para concorrer às eleições presidenciais deste ano, segundo aliados do dirigente partidário. Uma das hipóteses era juntá-la a Tarcísio, com o governador encabeçando a chapa, e Michelle sendo a “vice dos sonhos”, na leitura de alguns aliados de Tarcísio e líderes influentes do meio político. As informações são do jornal Valor Econômico.
