A indefinição sobre quem ocupará a diretoria de Organização do Sistema Financeiro e Resolução do Banco Central passou a gerar ruído entre bancos e analistas. A função, considerada uma das mais técnicas e estratégicas da autoridade monetária, será decisiva para destravar temas sensíveis que devem dominar a agenda do setor ao longo do ano, incluindo o destino do Banco de Brasília e eventuais mudanças no sistema de proteção de depósitos.
A preocupação decorre do fato de que a cadeira está vaga desde o fim do mandato de Renato Gomes, que deixou o posto em dezembro. Segundo o Valor Econômico, sem um substituto definido, decisões relevantes acabam sendo postergadas ou tratadas com cautela, já que a diretoria tem papel direto na avaliação de operações envolvendo bancos e na aprovação de medidas estruturais que impactam todo o sistema financeiro.
Instituições financeiras acompanham com atenção a demora na indicação, pois a área é responsável por arbitrar disputas regulatórias e avaliar operações complexas. O cargo também ganha relevância num momento em que o Banco Central tenta equilibrar estabilidade financeira e estímulo à concorrência, em meio a tensões crescentes entre bancos tradicionais e fintechs.
Relevância
A diretoria de Organização do Sistema Financeiro e Resolução atua como uma espécie de árbitro técnico dentro do Banco Central. É ela que analisa reorganizações societárias, fusões, liquidações e planos de recuperação de instituições financeiras. Além disso, avalia aumentos de capital e outras operações que exigem supervisão mais rigorosa.
Na prática, o ocupante do posto tem poder direto sobre o futuro de bancos em dificuldades. Qualquer solução para o caso do Banco de Brasília, por exemplo, terá de passar pelo crivo dessa área. Entre as possibilidades discutidas no mercado está até mesmo uma eventual incorporação por outra instituição pública, cenário que depende de aval técnico do Banco Central.
Outro ponto sensível envolve o Fundo Garantidor de Créditos. O BC revisa o modelo de seguro de depósitos após críticas de que regras atuais podem ter incentivado estratégias arriscadas em algumas instituições. A diretoria terá papel central na definição de novos parâmetros e na mediação de interesses divergentes entre bancos grandes, médios e plataformas financeiras.
Disputas e pressão
A escolha do nome ocorre em meio a uma disputa mais ampla sobre a agenda regulatória. Nos últimos anos, o avanço de fintechs e plataformas digitais acirrou o debate sobre competição no sistema financeiro. Bancos tradicionais defendem regras mais duras para novos entrantes, enquanto empresas de tecnologia pedem manutenção de medidas que ampliaram a concorrência.
O episódio mais recente que expôs essas tensões foi a quebra do Banco Master, que reacendeu críticas ao modelo atual de seguro de depósitos. Parte do mercado avalia que o mecanismo permitiu níveis elevados de risco com custos compartilhados entre instituições, aumentando a pressão por mudanças regulatórias.
Dentro desse contexto, a diretoria ganha peso político e técnico. A gestão atual do Banco Central busca conciliar estabilidade e inovação, o que exige um perfil capaz de dialogar com diferentes segmentos do setor financeiro sem comprometer o rigor regulatório.
Como funciona
A indicação para a diretoria do Banco Central parte do Governo Federal, mas precisa de aprovação do Senado. Depois disso, cabe ao presidente da instituição definir a distribuição das funções entre os diretores, embora haja alinhamento prévio sobre as áreas que cada indicado deve ocupar.
Além da vaga na diretoria de Organização do Sistema Financeiro, outra cadeira segue aberta: a de Política Econômica, responsável por estudos que embasam decisões sobre inflação e juros. Esse acúmulo de posições vagas amplia a percepção de incerteza no mercado.
Para investidores e bancos, a demora na escolha pode prolongar indefinições regulatórias e atrasar decisões relevantes. O diretor que assumir o posto terá impacto direto sobre disputas regulatórias, reorganizações bancárias e ajustes em regras que moldam o funcionamento do sistema financeiro brasileiro.
