Com um discurso nacionalista e messiânico e menções em latim, grego e tupi, o embaixador Ernesto Araújo tomou oficialmente posse de sua funções como ministro das Relações Exteriores do governo de Jair Bolsonaro defendendo a libertação da política externa e do Itamaraty do “globalismo”, a negociação de acordos comerciais em moldes modernos e o fim da “oikofobia”, o repúdio ao próprio passado.
O chanceler fechou seu discurso com a expressão “anue jaci” — Ave Maria, na tradução de José de Anchieta. Mas causou polêmica o fato de a palavra “anuê” ser verbalizada também como “anauê”, a saudação do Integralismo, movimento fascista brasileiro comandado por Plínio Salgado. A assessoria de imprensa do Itamaraty não confirmou se houve alusão de Araújo à doutrina de extrema direita.
“A política externa estava presa fora do Brasil”, declarou. “O presidente Bolsonaro está libertando o Brasil por meio da verdade. Nós vamos também libertar a política externa e libertar o Itamaraty“, completou o chanceler Araújo, para receber aplausos minguados da plateia de diplomatas brasileiros e estrangeiros e autoridades do novo governo, entre as quais o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli.
Araújo definiu o Itamaraty como “o ministério do tempo, com a missão de proteger e regar a seiva da nacionalidade” e como “santuário da Nação”. Afirmou esperar a recuperação da Casa de Rio Branco como guardiã da memória brasileira e se propôs a fazer da instituição um “instituto de amor para o Brasil e o povo brasileiro”.
“A partir de hoje, o Itamaraty retorna à Pátria amada”, declarou logo depois de criticar o suposto temor da diplomacia em se manter conectada com o povo. “Nossa política externa vem se atrofiando por medo. Vamos ler menos (a revista) Foreign Affairs e mais Clarice Lispector e Cecília Meirelles, vamos ler menos The New York Times e mais José de Alencar e Gonçalves Dias, vamos escutar menos a CNN e mais Raul Seixas: ‘Não me sento no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar’”, afirmou, referindo-se à canção Ouro de Tolo.
Em alguns trechos de seu discurso, Ernesto Araújo deu diretrizes mais claras para os diplomatas que passou a comandar. Por exemplo, quando reafirmou a sua própria admiração e a do governo Bolsonaro a Israel — “uma Nação mesmo quando esteve sem solo” —, aos Estados Unidos e aos países latino-americanos que, de acordo com ele, se libertaram do Foro de São Paulo, o grupo regional formado por partidos e pensadores da esquerda da região. Afirmou ainda admirar a “nova Itália“, governada pela extrema direita, assim como a Hungria e a Polônia.
Também declarou que, sob sua gestão, o Itamaraty vai reorientar a posição brasileira nos organismos das Nações Unidas de acordo “com o que o Brasil pensa, e não com o que as organizações não-governamentais querem”. Detalhou que essa reorientação se dará com base na soberania, nas liberdades e nos direitos básicos da humanidade — esta última, uma referência a sua posição contrária ao aborto e ilustrada por uma menção à novela O Direito de Nascer, um sucesso dos anos 1950 e 1960.
Afirmou ser a teofobia “gritante em nossa cultura” o problema do mundo, em uma indicação de que o Itamaraty deixará de se conduzir por uma visão laica, e não a xenofobia. “Aqueles que dizem que não existem homens e mulheres são os mesmos que pregam que os países não têm o direito de direito de guardar sua fronteira, são os mesmos que o feto humano é um amontoado de células descartáveis e que o ser humano é uma doença que deveria desaparecer para salvar.”
Igualmente determinou a adoção de um perfil “mais engajado” do ministério nas questões de comércio agrícola, tecnologia, turismo e outras áreas econômicas e posições negociadoras mais altivas. “O Itamaraty deixará de negociar em posição de fraqueza. Devemos nos apresentar com posição de força, como um dos maiores produtores de alimentos do mundo”, declarou.
