Não é possível falar sobre endividamento, superendividamento, orçamento familiar e educação financeira sem falar sobre consumo. Esses assuntos estão diretamente relacionados. Afinal, para além da política monetária e fiscal, existe uma regra que prevalece dentro de casa: o dinheiro precisa chegar até o final do mês.
É dentro dos lares que as famílias fazem a mágica de substituir a manteiga pela margarina, o óleo de girassol pelo de soja e, dependendo da situação, retirar produtos do carrinho. Mas será que continuamos economizando apenas para garantir o necessário ou estamos deixando de consumir o essencial para comprar coisas das quais sequer precisamos?
Para compreender essa provocação, precisamos falar sobre escassez e as estratégias que o marketing utiliza para despertar desejos. Pense que Porto Alegre passou quinze dias de chuva, vento, umidade e mofo. Você não tem secadora e as roupas começam a se acumular. Finalmente, aparecem três dias consecutivos de sol. No sábado, você corre para lavar as roupas acumuladas. No domingo, aproveita para lavar as roupas de cama. Na segunda-feira, ainda faz sol, então começa a procurar qualquer coisa que possa ser colocada na máquina. Afinal, depois de tanto tempo sem sol, é preciso aproveitar!
Mas o que isso tem a ver com finanças? Tudo! O fenômeno que precisamos observar é a escassez. Durante dias, você foi privado de algo que precisava e, quando finalmente teve acesso, surgiu uma urgência em aproveitar a oportunidade, mesmo depois de resolver o problema inicial.
Agora, imagine esse comportamento aplicado ao consumo. Você entra em uma loja e encontra um anúncio: “Últimas unidades!”. Em outro, lê: “Somente hoje!”. Nas redes sociais, descobre que determinado produto está esgotando porque todo mundo resolveu comprá-lo. Percebe a semelhança? O medo de perder uma oportunidade pode se tornar mais importante do que a própria necessidade do produto. E é nesse momento que começamos a gastar primeiro e pensar depois.
Quantas das nossas necessidades foram construídas pelo mercado? Pense nas máscaras faciais que ficam transparentes depois de aplicadas na pele. Há alguns anos, boa parte dos brasileiros sequer utilizava a palavra skincare. Hoje, produtos e rotinas de cuidados com a pele ocupam espaço nas redes sociais e, consequentemente, nos orçamentos familiares. Não estou dizendo que cuidar da pele seja desnecessário. A provocação é outra: em que momento um produto que você nunca pensou em comprar passou a parecer indispensável? O marketing não inventa todas as nossas necessidades, mas sabe despertar desejos e associar produtos a sentimentos de felicidade e pertencimento. Nas redes sociais, esse processo ganha força porque estamos comparando nossas vidas com as dos outros.
E é justamente nessa comparação que o orçamento familiar pode começar a perder a disputa. O cartão de crédito facilita esse processo. Uma compra de R$ 600 em dez parcelas de R$ 60 parece inofensiva. Mas cinco compras semelhantes representam R$ 300 mensais comprometidos antes mesmo de pagar água, luz ou alimentação. O problema não é necessariamente o parcelamento, mas o acúmulo de decisões que parecem pequenas quando analisadas isoladamente. É assim que o consumo, muitas vezes motivado por desejos momentâneos, pode comprometer uma renda que ainda nem foi recebida.
É nesse ponto que a educação financeira se aproxima muito mais da psicologia do que imaginamos. Conhecer juros, inflação e investimentos é importante, mas esse conhecimento, sozinho, não impede alguém de comprar por impulso. Frequentemente damos mais importância à satisfação imediata do que aos benefícios futuros. O prazer de comprar hoje é concreto. A tranquilidade financeira daqui a cinco ou dez anos parece distante. Talvez por isso a educação financeira devesse começar com três perguntas: eu realmente preciso disso? Eu desejava esse produto antes de vê-lo anunciado? Como consegui viver até hoje sem ele?
Se a resposta for “eu preciso, mas posso esperar”, talvez você tenha acabado de tomar uma decisão financeira mais importante do que imagina. Isso não significa deixar de consumir ou transformar a vida em uma sequência de privações. O dinheiro também existe para proporcionar conforto, experiências e felicidade. A questão é reconhecer quando estamos escolhendo consumir e quando estamos apenas respondendo a um estímulo. Afinal, provavelmente ninguém lembrará, daqui a cinco anos, da meia que você usou embaixo do terno ou do brinco comprado exclusivamente para determinada ocasião. Mas você poderá sentir os efeitos das decisões financeiras que repetiu todos os meses.
Quando milhões de famílias antecipam consumo e comprometem rendas futuras, as consequências ultrapassam as portas de casa. A capacidade de poupar, enfrentar emergências e sustentar o consumo nos meses seguintes diminui, e aquilo que começou como uma escolha individual ganha dimensão econômica. Não precisamos deixar de consumir para construir uma vida financeira saudável. Precisamos recuperar a capacidade de distinguir necessidade, desejo e urgência. Talvez a maior conquista da educação financeira não seja aprender a comprar mais com o mesmo salário, mas descobrir que nem tudo o que nos ensinaram a desejar precisa ser comprado.
* Tamara Rosenblum, pesquisadora na área de finanças e aposentadoria
