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“Devemos acreditar nas nossas filhas, não deve haver machismo”, disse o pai de Malala em sua passagem pelo Brasil

Malala com seu pai, Ziauddin Yousafzai. (Foto: Reprodução/Twitter)

O pai da ativista paquistanesa Malala Yousafzai, Ziauddin Yousafzai, deu dicas de educação igualitária durante a sua passagem pelo Brasil. “Devemos acreditar nas nossas filhas, não deve haver machismo”, disse ele em entrevista ao portal G1.

Poucas pessoas conhecem seu primeiro nome, mas é fácil reconhecer seu rosto, quase sempre ao lado ou atrás das fotos da paquistanesa Malala Yousafzai. Ziauddin Yousafzai, pai de Malala, é o ativista e educador que construiu uma escola no Vale do Swat, no Paquistão, e que incentivou o desejo da filha de ir à escola, mesmo que para isso fosse preciso desafiar o Talibã.

Atualmente com 49 anos, Ziauddin hoje vive com toda a família no Reino Unido, para onde fugiram após o atentado que quase custou a vida de Malala, quando ela tinha 15 anos. O ataque, porém, teve efeito contrário e acabou por transformá-la na voz mais alta do mundo em defesa da educação de meninas, e a pessoa mais jovem da história a receber o Prêmio Nobel da Paz.

Pai e filha são os fundadores do Fundo Malala, organização que define a aplicação das doações arrecadadas desde o atentado para a causa. A relação dos dois é tão próxima que Malala, hoje com 21 anos, nunca deixa de citar o pai como a pessoa que mais a inspira e a ensinou a ter confiança em si mesma.

A breve passagem pelo Rio de Janeiro foi para comemorar o aniversário de Malala, e durante o período o ativista paquistanês explicou como se tornou um pai feminista, e deu dicas aos homens que também querem seguir o mesmo caminho.

“Eu cumprimento todos os pais que acreditam em suas filhas, e que as incentivam a acreditar em si mesmas. E cumprimento todos os pais que criam filhos para acreditarem na igualdade, para acreditarem no poder das meninas, para acreditarem nas suas irmãs”, disse Ziauddin.

Malala contou em seu livro sobre os privilégios de homens em relação às mulheres na sua cultura. Sobre isso, seu pai lembrou que é uma experiência completamente diferente ser um menino ou uma menina em sociedades patriarcais. “Então eu às vezes digo às pessoas que, se eu tivesse sido uma das minhas cinco irmãs, uma das cinco filhas dos meus pais, as pessoas nunca teriam ouvido falar de mim no Swat, em nenhum outro lugar do mundo”, afirmou.

Ziauddin contou como a liberdade e a educação são encaradas diferentes na sociedade em que foi criado. “Sendo um menino eu tinha mais liberdade. Meu irmão e eu éramos como membros superiores da família. Nós tivemos mais cuidado, como roupas, comida, e a coisa mais importante: educação. Meu irmão mais velho completou seus dez anos de educação. Depois eu tive cinco irmãs e nenhuma delas foi à escola”, relatou.

“Meus pais gostavam muito da educação e tinham grandes sonhos para mim, mas eles tinham zero sonhos para as filhas deles. Eles só queriam casá-las o mais rápido possível”, contou.

O ativista também contou que tinha 20 anos quando percebeu o cenário. Um primo de primeiro grau teve um casamento muito desagradável, arranjado por seu tio. Ele a deixou, um mês depois. Ela não queria morar com ele. “Foi um casamento forçado e uma tragédia para ela. Pessoas desconhecidas deram um tiro na perna dela, e ela passou por muitas dificuldades”, disse o ativista. “Então eu podia ver a vida dela, como ela estava acorrentada por esses tabus sociais que são as normas ditas culturais e de honra da família. Mas ela foi muito corajosa, tentou se livrar do arranjo e casou novamente. A história dela me mudou”, relatou.

“Eu escrevi um longo poema em pachto chamado ‘Promessa’. Foi uma promessa para as meninas e mulheres de que eu lutaria pelos meus direitos, mas também pelos direitos delas, especialmente. Então eu cresci pela educação que eu tive. Eu virei feminista antes de ouvir essa palavra”, disse o pai de Malala.

Malala contou que Ziauddin ficou feliz ao saber que teria uma menina. “Mas 21 anos atrás, uma bebê menina não era bem-vinda nas famílias. Agora as pessoas estão mudando gradualmente, mas ainda um menino tem mais valor que uma bebê menina. Mas eu fiquei tão feliz, e tão honrado e abençoado quando a Malala nasceu. Eu lembro daquela manhã quando eu fui vê-la. Eu a coloquei no meu colo e olhei para ela brilhando com aqueles olhos lindos. Foi o momento mais bonito da minha vida. Umas semanas depois meu primo trouxe a árvore [genealógica] da família. Eu vi que todos eram homens, mas eu tive uma filha. Então o que eu fiz foi pegar uma caneta, desenhar uma linha a partir do meu nome e escrevi ‘Malala’”, contou o orgulhoso pai da ativista ganhadora mais jovem do Prêmio Nobel da Paz.

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