Domingo, 04 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 9 de setembro de 2021
Para um número incontável de norte-americanos, os atentados terroristas do 11 de Setembro de 2001 ainda estão longe de serem encarados apenas como um evento histórico. As consequências continuam no dia-a-dia, inclusive na saúde física e mental de muitos cidadãos. São parentes de vítimas, sobreviventes, moradores da área e quem atuou no resgate e remoção de escombros.
“Todos fomos expostos a muitos elementos cancerígenos e contaminantes no ar. E, desde o início, as pessoas tiveram tosse, dor de garganta e nariz escorrendo. É a tosse do World Trade Center. Você ainda tossia um pouco dois anos depois, porque seus pulmões estavam moles, irritados por termos ido ao local muitas vezes”, diz o tenente dos bombeiros James McCarthy, que chegou à pilha de escombros no dia fatídico.
O Distrito Financeiro de Manhattan, onde ficavam as Torres Gêmeas do WTC, foi palco de 93% das quase 3 mil mortes dos atentados da rede terrorista al-Qaeda, que também fizeram vítimas no Pentágono, perto da capital Washington, e no estado da Pensilvânia.
Danos à saúde
Além do trauma de testemunhar os atos e as mortes, quem estava em Nova York ficou exposto à nuvem tóxica decorrente do desabamento das torres, atingidas por aviões comerciais sequestrados pelos terroristas. A poeira e a fumaça carregavam substâncias nocivas, como combustível, cimento, gesso, amianto, fibras de vidro e metais pesados.
A lista deve aumentar, já que algumas doenças relacionadas — como o mesotelioma, tipo de câncer pulmonar provocado pela exposição ao amianto — podem levar até 40 anos para se manifestar. E calcula-se que até 500 mil pessoas possam ter sido expostas aos ataques e suas consequências.
Em 2009, depois de muita pressão das vítimas, o Congresso dos Estados Unidois aprovou a extensão dos auxílios até 2090, inclusive para novas adesões, a um custo de U$ 10,2 bilhões nos próximos dez anos.
“Uma das marcas registradas do 11 de Setembro é que as doenças decorrentes dos ataques costumam ocorrer juntas”, explica Mark Farfel, diretor de um outro programa, o “Registro de Saúde do World Trade Center”, gerido pela prefeitura de Nova York e que monitora (mas não trata) 71 mil pessoas diretamente expotas aos atentados.
Ele acrescenta: “Temos muitas pessoas com mais de uma condição de saúde mental, ou mais de uma condição de saúde física, ou uma combinação das condições física e mental. E o declínio na qualidade de vida aumenta com o número de doenças concomitantes que as pessoas têm recursos federais”.
O monitoramento da prefeitura, um dos maiores e mais longos já feitos após um desastre, começou logo depois de 2001. O grupo avaliado apresenta incidência acima da média para uma série de problemas, tais como asma, doenças cardíacas, câncer, consumo excessivo de álcool, até perda de emprego e aposentadoria precoce.
Mas a condição de saúde mais comum entre os monitorados é o transtorno de estresse pós-traumático, que acometeu, em algum momento, um em cada quatro expostos, mais de quatro vezes a taxa da população em geral.
O tenente McCarthy, que hoje preside o sindicato que representa 7,6 mil oficiais superiores, da ativa e aposentados, considera-se “um dos sortudos” que não desenvolveu doença grave após atuar no Marco Zero, nome pelo qual ficou conhecido o local do ataque. Mesmo assim, ainda hoje relata danos musculares pelo esforço intenso, dificuldade para respirar, irritação nas vias aéreas e refluxo gástrico.
“É algo que não me atrapalha viver, nada comparado às condições debilitantes que afetam tantos de nossos afiliados. Mas, além disso, há muitas coisas que afetam a alma”, confessa.
O oficial de 59 anos perdeu muitos companheiros naquele dia. Os ataques ainda são o evento mais mortal para bombeiros (343 mortes) e policiais (60) na história dos Estados Unidos. Além disso, McCarthy passou 48h seguidas vasculhando os escombros, recolhendo corpos e, muitas vezes, partes de corpos.
Avanços
O monitoramento dos afetados também revela alguns fatores positivos. Um estudo publicado este ano identificou melhoria psicológica relevante em um grupo de quase 5 mil monitorados que haviam tido alto nível de exposição aos ataques e relataram sintomas graves de estresse pós-traumático nos oito anos seguintes.
Foi identificada uma relação direta entre essa melhora e a presença, na vida dos avaliados, de maior suporte emocional e integração social.
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