Terça-feira, 26 de Maio de 2020

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Mundo 45% dos argentinos acreditam que a candidata a vice-presidente Cristina Kirchner é quem vai de fato governar o país em caso de vitória no domingo

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Candidata a vice, a ex-presidente é articuladora da campanha de Alberto Fernández. (Foto: Reprodução)

Quase metade dos argentinos (45%) acha que quem governará o país no caso de uma vitória do peronismo na eleição presidencial do próximo domingo (27) será a candidata a vice, Cristina Kirchner – e não quem concorre a presidente, Alberto Fernández. De acordo com uma pesquisa recente, dos institutos D’Allessio Irol e Berensztein, 74% dos que votarão neste binômio o farão apenas porque Cristina Kirchner compõe a chapa.

Qual será o papel da ex-mandatária no próximo governo, caso as pesquisas e as eleições primárias de agosto se confirmem? É a pergunta que todos se fazem.

Conhecida pelo primeiro nome, ainda que na Argentina o mais comum seja chamar os políticos pelo sobrenome, Cristina é a articuladora da candidatura de Alberto Fernández. Em maio deste ano, quando as pesquisas mostravam que ela poderia ganhar um primeiro turno contra o atual mandatário, Mauricio Macri, mas perderia no segundo (por conta de seu alto índice de rejeição), Cristina armou uma estratégia que surpreendeu a todos.

Anunciou que sairia candidata, sim, mas a vice, e quem lideraria a chapa seria Fernández – um peronista mais tradicional, com fama de conciliador e hábil com empresários e meios de comunicação (setores com quem Cristina sempre teve fricções). A estratégia até aqui deu certo. Ambos venceram as primárias, em agosto, com pouco mais de 15 pontos de vantagem sobre Macri, e agora chegam à eleição como favoritos.

Durante a campanha, Cristina tem sido discreta, atuando como coadjuvante. Raramente sobe ao palco dos comícios ao lado de Fernández. Também já não faz mais os efusivos e frequentes discursos para multidões em estádios.

Sua participação tem sido por meio de apresentações de seu livro autobiográfico, “Sinceramente”, em várias localidades do país. Aí, quase sempre sentada, busca aparecer contida e respondendo a perguntas de um jornalista ou de um político local escolhido a dedo.

Em meio às respostas sobre o livro, manda torpedos sintéticos e objetivos contra Macri. Diz que ele e sua política de ajustes são os responsáveis pelos altos índices de inflação (50% ao ano) e pela pobreza (que aumentou 5% em seu governo) e lembra as medidas de contenção e assistência social que marcaram a sua própria gestão (2007-2015).

O recolhimento de Cristina tem a ver com a estratégia. Se tem carisma suficiente para animar seus apoiadores, mas também gera ódio noutra faixa da população, concluiu-se que o melhor era agir com cautela.

Uma fonte ligada à campanha peronista diz que a percepção destes é que, se ela aparecer demais, acabaria levantando curiosidade e atenção, por exemplo, aos 11 processos por corrupção pelos quais responde na Justiça.

Há, porém, quem não deixe de se lembrar disso. No último domingo, antes do segundo debate presidencial, apoiadores de Macri levaram um imenso boneco inflável de Cristina vestida de presidiária, parecido ao que foi feito de Lula, no Brasil.

Quando indagado sobre quem escolherá os ministros, caso sejam eleitos, Fernández diz que ela “não terá nenhuma ingerência”. Se perguntado sobre sua participação do governo, o candidato repete que o presidente será ele.

Há dois modos como Cristina pode atuar. Um seria, de fato, manter-se nessa posição e, em vez do protagonismo da Presidência, cuidar de seus alicerces.

Por exemplo: segundo as projeções das pesquisas, o kirchnerismo deve eleger cerca de 40 deputados. São nomes escolhidos por Cristina, e muitos deles integram o La Cámpora, a organização política chefiada por seu filho, o deputado Máximo Kirchner.

Além disso, na Argentina, o vice-presidente tem mais poder do que no Brasil, por exemplo. Não se trata de um mero substituto do presidente em caso de viagem ou ausência, mas sim de uma figura que preside as sessões do Senado. Ou seja, Cristina ficará à frente dos debates legislativos – o que não é pouco.

A voz das ruas, porém, diz crer em outra coisa. “É claro que quem vai mandar é ela. Em um ano, por conta da crise econômica, vão pressionar a renúncia dele, e ela termina o mandato”, diz o motorista de Uber Juan Vicente, 59 anos, eleitor de Macri.

Entre a militância, corre a versão de que Cristina estaria voltando mais ou menos como fez o general Juan Domingo Perón quando chegou do exílio, nos anos 1970. Primeiro, fez com que seu aliado, Héctor Cámpora, fosse eleito – ele governou apenas 49 dias. Depois, convocou novas eleições e renunciou. Perón se elegeu, então, com 62% dos votos.

Ambas as especulações, porém, não levam em conta um fator da vida pessoal de Cristina que pode ser definidor de sua atitude: sua filha está muito doente e internada há quase um ano, em Cuba.

Florencia Kirchner, 29 anos, a ex-presidente e Máximo, outro filho de Cristina, estão sendo acusados pela Justiça por casos de corrupção que envolvem enriquecimento ilícito, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro por meio dos hotéis da família, na Patagônia.

Porém, diferentemente de Cristina, que é senadora, e de Maximo, que é deputado, Florencia não tem cargo público, e por isso não tem foro privilegiado. Se ficasse na Argentina, poderia ser presa.

 

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