Terça-feira, 03 de março de 2026
Por Redação O Sul | 2 de março de 2026
O fim de uma amizade nem sempre tem o drama de um romance. Na verdade, muitas vezes não envolve lágrimas, discussões ou brigas. Em vez disso, se desenrola por meio de um distanciamento gradual e silencioso que, eventualmente, deixa de ser temporário e se torna a norma, eliminando qualquer possibilidade de reconciliação. Em resumo: falta um desfecho. A dor que ocorre implícita ou explicitamente com o fim de uma amizade — porque é inevitável — pode ser ainda mais intensa, marcante e difícil de superar do que a de qualquer relacionamento amoroso.
“É uma dor particularmente profunda porque as amizades são construídas sobre uma intimidade escolhida, espontânea e não regulamentada Isso as torna autênticas, mas também propensas à confusão e ao vazio quando terminam” diz a psicóloga clínica e especialista em transtornos de personalidade e do desenvolvimento Macarena Gavric Berrios.
Em uma amizade significativa, explica a especialista, compartilhamos detalhes do cotidiano, transições de vida, atividades de lazer e partes da nossa identidade que nem sempre emergem em outros relacionamentos.
“A amizade é, em muitos casos, um refúgio emocional que acompanha nossa história pessoal por longos períodos. Portanto, perdê-la não significa apenas deixar de ver alguém, mas também perder um aliado privilegiado em nossa própria narrativa”, afirma.
Além disso, culturalmente, as amizades são associadas a uma certa estabilidade incondicional: “Amigos são os irmãos que a vida me deu” ou “amigos verdadeiros estão sempre presentes, aconteça o que acontecer” são apenas algumas das frases que refletem a crença — e a expectativa — de que a amizade é um vínculo que deve ser mantido sem dúvidas ou altos e baixos, indefinidamente ao longo do tempo.
“Muitas pessoas vivenciam as amizades com uma expectativa de permanência maior do que em um relacionamento amoroso. Enquanto os relacionamentos amorosos são reconhecidos como potencialmente instáveis e suscetíveis a términos, a amizade é idealizada como um afeto seguro e duradouro. Portanto, quando o relacionamento entra em crise ou desaparece, o impacto emocional pode ser inesperado e muito desorientador, porque o que era considerado sólido e estável de repente se torna frágil e finito”, diz a psicóloga.
Historicamente, o amor romântico tem sido priorizado em relação ao amor de um amigo. O cinema é testemunha disso: para cada mil filmes que abordam o tema do desgosto amoroso, deve haver um que explore em profundidade o que acontece após o rompimento de uma amizade.
Cynthia Zaiatz, neuropsicóloga e chefe do departamento de saúde mental do Sanatório Modelo de Caseros, sugere que isso se deve em grande parte ao fato de um relacionamento amoroso trazer consigo a possibilidade de construir uma família (embora muitos casais já não busquem esse objetivo), enquanto a amizade não se caracteriza por um projeto de vida compartilhado.
“Muitas pessoas priorizam o relacionamento amoroso, deixando as amizades em segundo plano, por medo da solidão”, observa Zaiatz.
Enquanto o término de um relacionamento amoroso segue um roteiro social — terapia de casal, infidelidade, separação, divórcio, luto, “ex”, entre outros rótulos que nomeiam o processo de fim de uma relação —, nas amizades não existem cláusulas, regras ou manuais para organizar a experiência emocional do fim de um vínculo. E, portanto, também não está claro o que é apropriado e o que não é.
Em um artigo publicado no PubMed, Grace Vieth, pesquisadora da Universidade de Minnesota, comenta sobre isso: “Muitas pessoas estão dispostas a resolver conflitos em um relacionamento amoroso, mas não em uma amizade”.
“A cultura prioriza o amor romântico como o vínculo central, concebendo a amizade como um extra opcional. Ao contrário do amor romântico, quando uma amizade termina não há conversas formais, nem frases feitas, nem luto reconhecido. Não há ritual nem linguagem. As pessoas não sabem como falar sobre isso, nem como processar emocionalmente a situação. Portanto, a perda de amizades permanece invisível, sem narrativa ou legitimidade social”, argumenta María Gimena Nasimbera, psicóloga clínica especializada em medicina do estresse.
Do ponto de vista psicológico, o processo de luto pela perda de uma amizade é muito semelhante ao luto pela perda de um relacionamento amoroso. Consiste em cinco estágios, nem sempre é linear e “pode ser reativado por memórias ou mudanças na vida”, explica Gavric Berrios.
Choque e perplexidade. Ao perceber que a amizade terminou.
Negação ou idealização do passado. Frases como “foi um mal-entendido” são típicas, afirma Nasimbera.
Uma profunda tristeza. “Nostalgia e um vazio por aquela pessoa que já não está mais aqui”, diz Nasimbera. “Às vezes, também, um apego ansioso”, acrescenta Gavric Berrios.
Raiva. Conclusões com conotações negativas sobre o comportamento da outra pessoa. “Ele não agiu como um amigo”, por exemplo são características dessa fase”, alerta Nasimbera.
Reorganização e aceitação. “Há uma revisão da própria identidade após a perda de um apoio relacional, e novos significados emergem. A experiência é integrada como parte da história pessoal”, conclui Gavric Berrios.
Ao analisar o fim de uma amizade, estudos em psicologia dos relacionamentos mostram que a maioria dos rompimentos não ocorre devido a grandes conflitos, sendo mais comum uma dissolução gradual. Nesse sentido, especialistas concordam que os motivos mais frequentes estão relacionados à passagem do tempo, mudanças e desequilíbrios no esforço investido na manutenção da relação, detalhando alguns deles a seguir:
– Mudanças em valores, interesses ou estilos de vida. “Transições como relacionamentos, parentalidade, empregos ou mudanças de residência modificam ritmos, prioridades e a forma como a energia emocional é distribuída. Elas não implicam necessariamente negligência, mas sim reconfigurações de identidade que tornam certas formas anteriores de conexão incompatíveis; às vezes, a amizade não consegue se adaptar à nova estrutura”, afirma Gavric Berrios.
– Dinâmicas prejudiciais. “Relacionamentos marcados por dependência, manipulação ou falta de reciprocidade não são sustentáveis”, afirma Zaiatz, enfatizando o último ponto: “Quando uma pessoa dá mais do que recebe — em termos de escuta, disponibilidade, cuidado ou esforço — o vínculo se desgasta.”
– Competitividade, ciúme ou comparação constante. “Quando o relacionamento se torna um espaço de rivalidade em vez de apoio, o bem-estar emocional sofre”, afirma Gavric Berrios, explicando que fica difícil acompanhar a outra pessoa em suas mudanças. “Às vezes, a evolução e o crescimento não são tolerados, gerando ressentimento ou afastamento.”
– Conflitos específicos. “Traições, enganos, brigas irreconciliáveis ou falta de apoio em momentos cruciais podem acabar abruptamente com uma amizade, sem volta”, explica Zaiatz.
– Confiança abalada. “Mentiras, deslealdade, triangulações… a confiança é a base da amizade e, uma vez abalada, é difícil de recuperar”, argumenta Gavric Berrios.
– Comunicação evasiva. “O acúmulo de tensões não resolvidas cria distanciamento emocional e, com o tempo, indiferença ou hostilidade”, observa Gavric Berrios. “Se uma das partes confronta e a outra evita, ou se uma se expressa intensamente e a outra se fecha, a resolução torna-se impossível.”
– Microagressões. Formas sutis e repetidas de invalidação, desconsideração ou manipulação que geram um desgaste cumulativo até atingir um ponto de saturação. “Comentários ofensivos, piadas passivo-agressivas, minimizar problemas, críticas disfarçadas de conselhos”, exemplifica Nasimbera. “Elas são especialmente prejudiciais porque, como não são reconhecidas como agressão, a pessoa leva muito tempo para estabelecer limites”, alerta Gavric Berrios.
– Expectativas incompatíveis. Quando uma das partes espera mais proximidade, resposta ou atenção do que a outra, isso gera frustração e distanciamento, explica Gavric Berrios, além de saturação, sensação de invasão e até ressentimento.
– O fim dos ciclos. “É o mais difícil de aceitar”, diz Nasimbera. “Muitas amizades não aceitam que o ciclo da amizade terminou. É difícil entender que seguir caminhos diferentes não significa que estejam brigando ou se dando mal, simplesmente se distanciam.” As informações são do jornal La Nación.
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