Domingo, 24 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 6 de fevereiro de 2023
Por volta das 17h do dia 11 de janeiro de 2023, a esposa de Lorenzo Siqueira (nome fictício), de 45 anos, fez um alerta. “Não podemos adiar mais as contas do mês. Preciso que você feche a venda, mesmo no prejuízo”, disse. Siqueira, que opera no mercado financeiro de maneira autônoma há 15 anos e pediu para ter o seu nome verdadeiro preservado, atendeu o pedido, e minutos depois realizou a ordem de venda de 400 das 10 mil ações que detinha da Americanas. Cada papel saiu por R$ 12,05.
A transação levantou um montante de R$ 4.820, segundo a nota de corretagem que compartilhou com o site E-Investidor. Restaram ao operador 9,6 mil ações, cujo preço médio pago em novembro de 2022 foi de R$ 15,82. Considerando o lote vendido naquele dia, ele investiu R$ 158,2 mil na varejista – a soma de todas as suas economias.
Mesmo quem é iniciante no mercado financeiro já sabe que uma das primeiras lições é nunca colocar “todos os ovos na mesma cesta”. A diversificação é muito importante para reduzir os riscos na carteira, e Siqueira sabia disso.
Experiente no mercado, ele trabalhou a vida toda com “all in”, quando o investidor aloca todos os recursos em apenas um ativo. Com base em análise técnica do comportamento dos papéis, ele identificava tendências de alta e fazia swing trades (operações de compra e venda de ativos no prazo de dias ou semanas) até atingir um preço-alvo determinado. O objetivo era fazer cerca de 5% de ganho ao mês.
Entre 2008 e 11 de janeiro de 2023, a estratégia só havia falhado uma única vez: em 2012, ele investiu R$ 154,8 mil em 9,1 mil ações da OGX, petroleira de Eike Batista.
Cada papel da OGXP3 foi adquirido por R$ 17,02 e, de acordo com a análise gráfica feita pelo operador, o preço de saída da posição seria a R$ 17,51.
A ação da empresa chegou aos R$ 17,49 em março daquele ano e depois caiu para a mínima de R$ 0,11 em outubro de 2013. Promessas como a injeção de capital de US$ 1 bilhão, feitas por Eike, não foram cumpridas. No final, dos R$ 154,8 mil investidos pelo operador, restaram R$ 42 de saldo.
Ricardo Brasil, fundador da Gava Investimentos, afirma que Siqueira fez o que nenhum investidor deve fazer: se expor ao risco da ruína. Ou seja, colocar todo o capital em um ativo só. “É um erro clássico. Mesmo há 10 anos operando da mesma forma e ganhando uma porcentagem considerável por mês, em um dia tudo pode ir a zero”, diz.
Danielle Lopes, sócia e analista de ações da Nord Research, afirma que esse comportamento é comum mesmo entre os investidores mais experientes. “Isso está muito ligado ao vício na adrenalina da tomada de risco, como acontece em quem faz day trade (operações no prazo de um dia). Há muitos relatos de investidores que apostaram tudo shorteando papéis e praticamente quebraram”, afirma.
Para Siqueira, o primeiro baque foi o mais difícil. “Fui muito zombado com essa situação do Eike. As pessoas falavam: você caiu no conto desse bilionário fajuto? Quando investir de novo, deve aplicar na mão de bilionário de verdade”, diz.
E assim ele fez. Investiu em empresas de “bilionários de verdade” pelos 11 anos seguintes. O último grande investimento foi na Americanas, que tem como acionistas de referência Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira. “Esses caras são os maiores bilionários do País”, exclamou o investidor, que viu novamente seu dinheiro virar pó na Bolsa.
Duas horas depois de ter feito a ordem de venda de 400 ações de Americanas, veio o e-mail com o fato relevante. No documento, Sérgio Rial (CEO) e André Covre (CFO), empossados há menos de 10 dias, anunciavam a descoberta de R$ 20 bilhões em inconsistências contábeis nos balanços e anunciavam as renúncias aos cargos. A discrepância viria de uma operação muito comum no varejo, chamada “risco-sacado”, mas que deixou de ser contabilizada ou foi informada incorretamente.
Após ler o texto de Rial e Covre, Siqueira passou a noite em claro. Afinal, sabia que havia perdido, mais uma vez, todas as suas economias da mesma forma que perdeu 11 anos antes com Eike Batista.
A varejista tinha fama de espremer fornecedores para que o prazo de pagamento das mercadorias fosse o mais longo possível. Um deles falou ao E-Investidor e disse que a empresa fazia os pagamentos em cerca de 90 dias, mas que atrasos eram considerados “comuns”.
Esse empresário, que não quis se identificar, relatou que fornecia para a Americanas havia anos e que depois de outubro a empresa começou a atrasar ou dificultar os pagamentos, mas não se assustou “porque não era a primeira vez que acontecia”. A situação mudou com a repercussão das inconsistências contábeis. O fornecedor calcula um prejuízo de R$ 500 mil em mercadorias entregues no fim do ano passado.
O caso Americanas estampa a quebra da confiança dos investidores com grandes empresas. “Eu estudei e fiz o meu dever de casa. Quando uma companhia frauda ou erra um balanço, ela destrói um castelo de cartas que estava em equilíbrio”, desabafa Siqueira. Ele afirma que deve se afastar do mercado de capitais e voltar a trabalhar com comércio.
Para Mehanna Mehanna, professor de finanças e sócio fundador da Phi Investimentos, fica uma reflexão. “Qual é o preço que você está disposto a pagar por um erro, seja ele tático, sistêmico ou de fraude?”, diz. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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