Sexta-feira, 02 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 15 de fevereiro de 2023
Em março de 2020, em meio ao temor e desconhecimento do início da pandemia, a rotina da epidemiologista norte-americana Maria Van Kerkhove passou a envolver coletivas quase que diárias para atualizar o resto do mundo sobre o avanço da Covid-19. Três anos depois, a crise sanitária pode não ter chegado ao fim, mas a líder técnica da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a doença reconhece que “nunca estivemos tão perto” do ponto em que o vírus não represente mais uma emergência mundial.
No Rio de Janeiro para participar da 6ª Conferência Global de Ciência, Tecnologia e Inovação (G-Stic) – evento que, em sua primeira vez nas Américas, acontece na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) – Maria falou em entrevista exclusiva ao jornal O Globo sobre o cenário atual do vírus, o que falta para a pandemia acabar e as perspectivas para os próximos meses com a disseminação de subvariantes da Ômicron.
A especialista, que também chefia a unidade para Doenças Emergentes e Zoonoses da OMS, falou ainda sobre surtos recentes de outras doenças, como a monkeypox, o ebola e a cólera, e a preparação para o enfrentamento de novas pandemias – que para ela não é uma questão de se irá acontecer, mas sim quando e por qual patógeno. Veja abaixo os principais trechos da entrevista.
– A OMS disse que espera declarar o fim da emergência da covid-19 em 2023, mas em avaliação recente decidiu que a doença ainda representa o nível máximo de alerta da organização. Estamos na direção certa? “Ainda estamos em uma pandemia, mas esperamos acabar com a emergência neste ano. Na verdade, esperávamos ter encerrado no ano passado, mas não utilizamos as ferramentas disponíveis da maneira mais eficaz em todo o mundo. Mas certamente estamos indo na direção certa, estamos em uma fase diferente. Temos ferramentas que podem salvar vidas, como no atendimento clínico com antivirais e outras terapias, e com as vacinas, que são seguras e eficazes para prevenir doença grave e a mortes. Se as pessoas recebem o reforço e doses adicionais, sabemos que esse nível de proteção permanece muito alto por algum tempo. Então estamos em um estágio diferente, nunca estivemos tão perto de acabar com a emergência. Mas ainda temos entre 10 e 40 mil mortes por semana, que ocorrem principalmente entre indivíduos mais velhos e pessoas que não foram vacinadas completamente. Isso é algo sobre o qual temos controle. Acabar com essa emergência exige um esforço conjunto ao redor do mundo, reconhecendo as situações diferentes de cada país com base no histórico da pandemia, na circulação de variantes, nas estratégias que foram implementadas, no nível de imunidade por infecção e/ou vacinação, na capacidade e agilidade dos países para usar e ter acesso às ferramentas que salvam vidas. Além de outros fatores, como emergências simultâneas de saúde, e até mesmo não relacionadas à saúde, como guerra, deslocamento, inundações, secas. Nós, como organização, precisamos acabar com essa emergência em todos os lugares e estamos caminhando para fazer isso. Mas há mais trabalho a fazer e acho que essa é a mensagem que queremos transmitir.”
– Você chegou a dizer que a subvariante Omicron XBB.1.5, que tem crescido nos países e provocado aumento de casos, é a versão mais transmissível do vírus até agora. Como espera que essa disseminação impacte a pandemia nos próximos meses? “Nós temos mais de 600 linhagens conhecidas da Ômicron circulando agora. Muitos países estão vendo que a XBB.1.5 tem uma vantagem de crescimento em comparação com as outras em circulação, mas em termos de gravidade ainda não temos um sinal de que seja mais ou menos severa. O que esperamos é continuar a ver ondas de infecção, seja pela XBB.1.5, seja por outras subvariantes. Esperamos essa evolução do vírus, que outras variantes tenham uma vantagem de crescimento. Veremos mais escape imune, temos certeza disso. Mas o que queremos, e temos o plano e controle para isso, é que essas ondas não se traduzam em hospitalizações e mortes. É nisso que estamos realmente tentando focar no momento.”
– Quais são os riscos de novas mutações que escapem da imunidade prévia ou provoquem quadros mais graves? “A grande preocupação em torno das variantes e da evolução do vírus Sars-CoV-2 é que não sabemos ao certo como ele irá evoluir. Há muitas pessoas excelentes trabalhando nisso, observando as diferentes mutações e as sublinhagens da Ômicron. Corremos o risco de novas variantes, de esse vírus se espalhar para espécies animais diferentes que são suscetíveis a ele, sofrer mutações e voltar para os humanos novamente. Há muita incerteza. Faz apenas três anos que lidamos com esse vírus, embora pareça muito mais tempo. Nosso entendimento ainda é bastante limitado. Por isso, temos que nos preparar para diferentes tipos de cenários. Não sabemos se haverá uma mudança na gravidade. Essa é a grande preocupação agora.” As informações são do jornal O Globo.
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