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Comportamento Como reconstruir a confiança num relacionamento abalado

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Na traição, o que se perde não é apenas a confiança no outro, mas também as imagens que cada um construiu.

Foto: Freepik
Na traição, o que se perde não é apenas a confiança no outro, mas também as imagens que cada um construiu. (Foto: Freepik)

Reconstruir a confiança após uma ruptura é um dos processos mais complexos vividos por um casal. Em muitos casos, o que começa como uma tentativa de reaproximação acaba aprofundando feridas, porque o diálogo passa a ser guiado por dor, ressentimento, raiva e culpa. Esses sentimentos precisam ter espaço para existir, mas, quando assumem o controle das conversas, tendem a gerar mais desgaste do que reparação. Há perdas reais que acompanham qualquer quebra de confiança e que precisam ser reconhecidas. Não se trata de “voltar ao que era antes”. O que existe é uma travessia, marcada por mudanças irreversíveis. Insistir na ideia de retorno à antiga estabilidade mantém o casal preso à repetição de mágoas e à reencenação do trauma.

O primeiro passo é reconhecer o impacto da ruptura. Uma traição, uma mentira recorrente ou uma negligência prolongada não afetam apenas o vínculo em si, mas rompem o pacto implícito de segurança que sustentava a relação. O que se perde não é apenas a confiança no outro, mas também as imagens que cada um construiu: a ideia de um casal sólido, a crença em um parceiro incapaz de ferir e até a percepção de si mesmo dentro daquela relação. É, simbolicamente, o fim de um mundo.

Nesse contexto, é fundamental que quem quebrou a confiança assuma a responsabilidade pelo ocorrido. Justificativas que transferem a culpa para o parceiro ou para a dinâmica da relação tendem a agravar o dano. Argumentos como “o relacionamento já estava ruim” ou “faltava atenção” não reparam o erro e impedem a criação de um ambiente emocionalmente seguro. A reconstrução exige que o outro possa expressar medo, tristeza e raiva sem ser interrompido ou desqualificado. A elaboração do sofrimento só acontece quando as emoções são reconhecidas e nomeadas.

No entanto, elaborar não significa investigar exaustivamente o passado. A busca obsessiva por detalhes —onde, quando, como e com quem— costuma alimentar um ciclo de punição e ressentimento. Esse tipo de investigação gera imagens dolorosas, estimula a ruminação e mantém o casal aprisionado a uma narrativa que se amplia na imaginação. Em vez de promover clareza, esse movimento costuma minar qualquer possibilidade de recomeço.

A pessoa traída, tomada pela dor, tende a revisitar toda a história do relacionamento em busca de coerência para o trauma. Gestos de carinho passam a ser vistos como falsidade; ausências, como prova de desinteresse. Constrói-se a ideia de que o amor nunca existiu de fato. Embora compreensível, essa leitura funciona mais como defesa psíquica do que como verdade: é uma tentativa de anular o vínculo para evitar sentir a perda.

Há também o risco de transformar os “cacos” em armas. Quando a dor não é processada, a raiva pode se manifestar como agressividade, ironia ou comportamentos passivo-agressivos.

Desqualificar o outro, exercer controle excessivo ou impor vigilância constante torna-se uma forma inconsciente de fazer o parceiro sentir o mesmo sofrimento. Esse mecanismo, conhecido como identificação com o agressor, oferece uma sensação momentânea de poder, mas corrói ainda mais a relação.

Em uma sociedade marcada pela exigência de transparência total, cresce a ilusão de que tudo o que não é exposto esconde algo errado. Essa lógica dificulta a reconstrução da confiança, pois transforma cuidado em controle e proximidade em vigilância. Abrir mão de toda privacidade não fortalece o vínculo; ao contrário, reforça a ideia de que liberdade e individualidade são ameaças.

Reconstruir ou punir: essa é a pergunta central que precisa ser feita. A reparação só se torna possível quando a dor deixa de ser usada como instrumento de ataque. Quanto mais o casal permanece preso à tentativa de decifrar o passado, mais se afasta da possibilidade de construir um futuro diferente —e, ainda assim, possível.

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