Quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

CADASTRE-SE E RECEBA NOSSA NEWSLETTER

Receba gratuitamente as principais notícias do dia no seu E-mail.
cadastre-se aqui

RECEBA NOSSA NEWSLETTER
GRATUITAMENTE

cadastre-se aqui

Colunistas IA, multipolaridade e o risco de uma desordem permanente

Compartilhe esta notícia:

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

O mundo atravessa duas transformações simultâneas que, combinadas, podem redefinir o século XXI: o ataque à hegemonia americana e a difusão acelerada da Inteligência Artificial.

Separadamente, cada uma já seria de grande importância. Juntas, criam um ambiente internacional de alta capacidade tecnológica e baixa capacidade de coordenação política, uma fórmula clássica para instabilidade prolongada.

A ordem construída após 1945, e reforçada após o fim da Guerra Fria, apoiava-se em três pilares: liderança econômica dos Estados Unidos, instituições multilaterais relativamente eficazes e um consenso mínimo em torno da globalização e da democracia liberal. Esse arranjo vem erodindo desde a década passada. A ascensão da China, a fadiga da globalização, a polarização nas democracias e a crise de legitimidade das elites políticas já apontavam para uma transição. A Inteligência Artificial, porém, altera a natureza dessa mudança.

A IA não é apenas mais uma inovação. Ela atua como acelerador sistêmico. Ao automatizar tarefas cognitivas, redefine os mecanismos de geração de riqueza. Ao baratear a projeção de poder, transforma a lógica da competição estratégica. Ao permitir a produção massiva de informação sintética, fragiliza o ambiente informacional que sustenta a legitimidade política.

No plano econômico, a promessa de crescimento sem emprego em larga escala ameaça o coração do contrato social das democracias industriais. O trabalho assalariado foi o principal instrumento de integração social e mobilidade. Se a IA concentra valor em poucos ecossistemas tecnológicos e reduz a centralidade do trabalho, cresce a pressão sobre modelos fiscais, previdenciários e identitários. Não se trata apenas de produtividade, mas de pertencimento. A crise do trabalho tende a se converter em crise política.

Geopoliticamente, a multipolaridade que emerge é imperfeita. Nenhum ator reúne hoje as quatro funções que os EUA exerceram por décadas: prover liquidez, garantir segurança, definir regras e oferecer referência normativa. A China é um polo econômico, mas não um arquiteto institucional global. A União Europeia regula, mas projeta pouco poder. Potências regionais ampliam autonomia sem oferecer governança. O resultado é uma multipolaridade sem coordenador, marcada por regionalização produtiva, coalizões circunstanciais e competição tecnológica como eixo central do poder.

Diferentemente das armas nucleares, que exigem Estados robustos, capacidades ofensivas baseadas em IA requerem computação, dados e especialistas. Isso “democratiza” a interferência internacional. Surgem as guerras epistêmicas: não se busca convencer o adversário, mas corroer a possibilidade de consenso factual dentro das sociedades. Conteúdos sintéticos verossímeis, manipulações psicológicas e simulação de movimentos sociais artificiais tornam as democracias abertas especialmente vulneráveis.

A competição entre potências alimenta corridas tecnológicas não reguladas, a automação reduz interdependência produtiva, a polarização doméstica é amplificada por manipulação informacional e a ausência de liderança global impede a construção de normas para a IA. Enquanto a capacidade de transformação cresce, a capacidade de coordenação encolhe.

A nova base do poder internacional já não é apenas territorial ou militar. Está em semicondutores avançados, infraestrutura de dados, modelos fundacionais e ecossistemas científicos integrados. A geopolítica do século XXI gira em torno de quem controla essas cadeias críticas. Alianças e dependências passam a ser definidas mais por chips e códigos do que por tanques e tratados.

Há três trajetórias possíveis. A mais desejável seria uma multipolaridade regulada, com coordenação mínima entre potências para mitigar riscos tecnológicos e preservar a estabilidade econômica. A mais provável é a competição tecno-nacional administrada: blocos rivais mantêm interdependência seletiva, enquanto disputam supremacia em IA. A mais perigosa é a fragmentação sistêmica, com regionalização extrema e conflitos híbridos constantes.

(Instagram: @edsonbundchen)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Colunistas

Lula não destruiu Toffoli, agora terá de aguentar
“O Cadastro Nacional de Pedófilos nunca foi tão urgente”, alerta Maurício Dziedricki
Deixe seu comentário
Verificação de Email

Você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!

0 Comentários
mais recentes
mais antigos Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
Pode te interessar
0
Adoraria saber sua opinião, comente.x