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Colunistas A crise do agro é estrutural e exige responsabilidade estratégica

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(Foto: FecoAgro/Divulgação)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

A crise que hoje preocupa o agronegócio brasileiro não nasceu na safra 2024/25. Ela é resultado de um ciclo que começou ainda em 2020/21, quando o setor viveu margens extraordinárias impulsionadas por preços internacionais elevados, câmbio favorável e forte demanda global. Aquele momento gerou confiança, expansão de investimentos, aumento de área plantada, aquisição de máquinas, crescimento do crédito e maior alavancagem financeira.

Entre 2021/22 e 2022/23 o cenário ainda era positivo, mas os custos começaram a subir de forma consistente. Fertilizantes, defensivos, energia, logística, máquinas e principalmente o custo do capital passaram a pressionar o Custo Operacional Total. Criou-se uma nova estrutura de despesas que não retornou aos patamares anteriores, mesmo com a posterior normalização dos preços das commodities.

A partir de 2023/24 consolidou-se um ambiente de compressão de margens, redução da receita bruta e maior restrição de crédito, revelando fragilidades acumuladas ao longo do ciclo anterior. O produtor continuou eficiente dentro da porteira, mas passou a enfrentar um cenário financeiro cada vez mais apertado fora dela.

Nas safras 2024/25 e nas projeções para 2025/26, os dados analisados pelo especialista Leonardo Machado indicam aumento contínuo do Custo Operacional Total inclusive em áreas próprias, queda da receita bruta em grande parte dos estados do Centro-Oeste e margens mais estreitas. Mato Grosso do Sul aparece como exceção pontual, sustentado por valorização superior a oito por cento no preço da soja.

Goiás mantém o maior custo de produção da região, mas compensa com produtividade elevada, preservando melhor margem líquida. Já Mato Grosso registra queda superior a quarenta por cento na margem líquida, refletindo o impacto simultâneo de alta de custos e retração de receita.

No caso do Rio Grande do Sul, o cenário se agrava ainda mais. Além da pressão de custos e da redução de margens, o estado enfrenta uma sequência de eventos climáticos extremos que variam entre enchentes severas e secas recorrentes. Essa instabilidade compromete produtividade, eleva riscos, aumenta o endividamento e reduz a capacidade de recuperação financeira do produtor, tornando o ambiente ainda mais desafiador. O quadro geral deixa claro que não enfrentamos uma crise de produção.

O produtor brasileiro segue altamente produtivo e tecnificado. O que enfrentamos é uma crise de rentabilidade e de estrutura financeira. Produz-se bem, mas ganha-se menos e com maior exposição ao risco. O momento exige disciplina estratégica, gestão técnica, planejamento financeiro rigoroso, uso de instrumentos de proteção de preço e revisão criteriosa de investimentos. Também exige ambiente regulatório previsível e políticas de crédito alinhadas à realidade do setor, especialmente em regiões mais impactadas por eventos climáticos extremos.

Compreender que a crise é estrutural e não pontual é condição essencial para evitar diagnósticos superficiais e construir soluções duradouras para um segmento que permanece como um dos pilares da economia nacional, responsável por parcela relevante do PIB, das exportações e da geração de renda no Brasil.

* Jerônimo Goergen é presidente da Associação das Empresas Cerealistas do Brasil – ACEBRA

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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