Segunda-feira, 23 de março de 2026
Por Redação O Sul | 22 de março de 2026
Em patamar mais alto no período recente — em meio aos desdobramentos do escândalo envolvendo o Banco Master —, a desconfiança da população brasileira em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF) é mais acentuada do que a observada em tribunais com atribuições equiparáveis às da Corte brasileira e outras instituições do Judiciário pelo mundo. É o que mostra um levantamento do portal O Globo com base em pesquisas de opinião conduzidas em países considerados democracias estáveis. O cenário inclui lugares onde vigoram códigos de conduta para magistrados, tema que tem sido debatido no STF com apoio do presidente da Corte, Edson Fachin.
Dados do Datafolha divulgados no início do mês mostraram que o percentual dos entrevistados que afirma não confiar no STF chegou a 43%, valor mais alto registrado desde o início da série histórica em 2012. Já a última pesquisa Genial/Quaest mostrou índice ainda maior — 49% dos brasileiros não confiam no tribunal, de acordo com o levantamento, maior percentual registrado pelo instituto de pesquisa desde 2022. Procurado para comentar os resultados, o STF não se manifestou.
A má avaliação da Corte brasileira é maior em comparação às de países como Estados Unidos e Alemanha. O índice também supera o patamar registrado pelos Judiciários de Reino Unido e Portugal. Por outro lado, fica em patamar semelhante ao contabilizado na Índia e abaixo da desconfiança observada na Bolívia e no Chile.
Uma pesquisa feita neste mês pela emissora NBC News mostrou que 38% dos americanos não viam segurança nas decisões tomadas pela Suprema Corte, enquanto 62% afirmaram ter algum nível de confiança na atuação dos magistrados. Já na Alemanha, que tem servido de inspiração para o debate sobre código de conduta no Brasil, 63% dos entrevistados dizem confiar no Tribunal Constitucional Federal, segundo pesquisa do instituto Allensbach divulgada em dezembro do ano passado. Em relação aos Judiciários do Reino Unido e Portugal, respectivamente, 43% e 44% não confiam em sua atuação.
Formas de funcionamento
Um fator que une diversos tribunais constitucionais é que frequentemente eles são alvos de ataques e campanhas políticas para desacreditá-los, mas a percepção da credibilidade também tem sido afetada por critérios próprios de funcionamento das Cortes, explicam os especialistas.
Um aspecto que chama atenção é a exposição das deliberações dos magistrados. Na Suprema Corte dos EUA, são proibidos, por exemplo, registros em vídeo ou em imagem. Ao final, as decisões são publicadas por escrito, com detalhamentos sobre os votos da maioria e de dissidentes.
No Brasil, por outro lado, as sessões são transmitidas na íntegra e ao vivo pela TV Justiça. Inicialmente defendida como uma forma de garantir a transparência e a integridade da Corte, a medida também tem sido entendida, em parte, como uma das razões que impactam na percepção negativa da sociedade sobre os magistrados, avalia o professor e pesquisador de Direito Luís Fernando Esteves, do Insper:
— O problema é como os ministros se comportam na frente das câmeras. Já vimos discussões e brigas entre eles, e isso certamente diminui a percepção das pessoas de que aqueles são magistrados. Também vemos uma série de julgamentos em que utilizam argumentos inconsistentes, ou que modificam entendimentos jurisprudenciais sobre questões que eles decidiram há pouquíssimo tempo. Essas mudanças podem gerar a percepção de que ali estão políticos, e não juízes.
Panorama pelo mundo
Brasil – Dados do Datafolha mostram que a desconfiança no STF chegou a 43%. Já a Quaest aponta que 49% afirmam não ter confiança na atuação da Corte, que tem sido pressionada com o caso Master.
Estados Unidos – Levantamento da NBC News indica que 38% dos americanos desconfiam da Suprema Corte. O tribunal com nove ministros adota um código de conduta e tem regras rígidas para exposição de decisões e sessões.
Alemanha – Pesquisa do instituto Allensbach registrou que a desconfiança no Tribunal Constitucional é de apenas 37%. Magistrados seguem código de conduta desde 2018, com regras para evitar conflitos de interesse.
Índia – Levantamento da rede de pesquisa Ipsos revelou que 51% não consideram a Suprema Corte honesta. O índice é o mais próximo da desconfiança registrada no Brasil entre os países analisados.
Chile – No país, segundo uma pesquisa também feita pela rede Ipsos, 57% não confiam na Suprema Corte. Entre 2024 e 2025, três magistrados foram destituídos, dois pelos Senado e um pelos próprios ministros.
Bolívia – Registra o mais alto índice de desconfiança na Suprema Corte, com 93% da população afirmando que não tem segurança na atuação do tribunal, diz estudo produzido pelo instituto Friedrich Ebert Sfitung. Com informações do portal O Globo.
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