Quinta-feira, 07 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 6 de maio de 2026
O nervo vago é o nervo mais extenso do corpo humano. Apesar do nome, ele é, na verdade, um par de nervos, localizado nos dois lados do corpo, que serve como um canal de comunicação bidirecional entre o cérebro e o coração, os pulmões e os órgãos abdominais, além de estruturas como o esôfago e a laringe, ajudando a controlar processos involuntários, incluindo respiração, frequência cardíaca, digestão e respostas imunológicas.
No entanto, sua ação vai muito além disso. O neurocirurgião americano Kevin J. Tracey, que também é pesquisador, descobriu que o cérebro e o sistema imunológico estão intimamente ligados pelo nervo vago. Esse achado abriu um grande campo de pesquisa e possibilidade de novos tratamentos, por meio da ativação do nervo vago para doenças inflamatórias, como artrite reumatoide, câncer, doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade e neurodegeneraçãoo, como Alzheimer e Parkinson.
Nos últimos anos, começaram a surgir milhares de dicas nas redes sociais sobre como estimular o nervo vago para obter benefícios como prevenir doenças, aumentar o bem-estar e melhorar a saúde mental. Diante desse aumento e também de muita desinformação, Tracey decidiu escrever um livro inteiro sobre esse nervo tão importante para o corpo humano e, muitas vezes, mal compreendido. Chamado “O nervo vago: as descobertas sobre o nervo que regula sistemas vitais do nosso corpo e pode curar doenças crônicas e autoimunes”, a obra foi lançada recentemente no país pela editora Sextante.
Em entrevista ao jornal O Globo, Tracey, que é referência mundial nas áreas de inflamação e medicina bioeletrônica e presidente e professor do Instituto Feinstein, nos EUA, fala sobre a importância do nervo vago para a nossa saúde e explica como podemos ativá-lo por meio de hábitos e práticas simples do dia a dia para melhorar nossa saúde em geral.
– Por que você decidiu escrever um livro sobre o nervo vago? “Escrevi este livro porque existem bilhões de publicações na internet sobre o nervo vago e acho muitas delas profundamente confusas, algumas erradas e outras interessantes, mas não comprovadas. Então, tentei reunir essas informações para que as pessoas pudessem concordar sobre o que sabemos, o que não sabemos, o que está errado, o que está certo e o que é interessante, mas que deveríamos estudar mais a fundo.”
– Por que o nervo vago é tão importante para a nossa saúde? “Porque é um importante canal de informação, um caminho pelo qual o corpo comunica ao cérebro o que está acontecendo no corpo e o cérebro comunica ao corpo o que fazer a respeito. Os sinais que viajam pelo nervo vago – são 100 mil nervos de cada lado do pescoço, totalizando 200 mil nervos vagos – foram aprimorados por milhões de anos de evolução para desempenhar uma função específica, transmitir uma mensagem específica com um propósito específico e, em conjunto, essas funções produzem harmonia. É como 200 mil cordas de violino e, quando todas tocam em perfeita harmonia, o resultado é uma bela sinfonia, que é a homeostase, o equilíbrio da função de todos os órgãos. Embora médicos e cientistas estudem o nervo vago há 2 mil anos ou mais, só agora, com ferramentas modernas, estamos criando mapas precisos de todas essas fibras. E esses novos mapas nos levaram a entender que essas fibras não controlam apenas os órgãos que conhecemos, como também controlam a inflamação, o que abriu um novo mundo de oportunidades.”
– Em seu livro, você escreve que o nervo vago está muito próximo do sistema imunológico. O que muda quando começamos a olhar para o corpo como um sistema integrado entre o cérebro e o sistema imunológico? “Muda muita coisa. Por décadas, os estudiosos do cérebro e da neurociência não estudavam imunologia, e vice-versa. Mas hoje, esses campos estão convergindo na área da neuroimunologia e na medicina bioeletrônica, porque, no fundo, o corpo e o cérebro estão conectados mais do que se imagina. Platão já dizia isso: se você quer curar a alma, cure o corpo, e se quer curar o corpo, cure a alma. Essa ideia, todo mundo conhece. Os universitários, estudam, ficam exaustos, fazem as provas e adoecem depois porque baixaram a guarda. Todos sabemos que existe uma relação entre o sistema nervoso e o sistema imunológico. Mas não podíamos fazer nada a respeito porque ninguém entendia como funcionava. Estudando o nervo vago, descobrimos uma nova maneira de encarar a questão. Por exemplo, descobrimos que os sinais do nervo vago funcionam como os freios de um carro, impedindo que ele desça a ladeira em alta velocidade. Essa ‘linha de freio’, pode reduzir a inflamação. Pensando dessa forma, podemos realizar experimentos concretos em laboratório, estudar os sinais nas fibras do nervo vago e aprender como os sinais elétricos são convertidos em sinais químicos, e como esses sinais químicos inibem a inflamação. Isso é interessante.” As informações são do jornal O Globo.
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