Domingo, 14 de junho de 2026
Por Gisele Flores | 29 de maio de 2026
Renato Borghetti é uma das estrelas do projeto patrocinado pela Rio Grande Seguros e Previdência.
Foto: Marcelo Farinha fotografia
Festival internacional transforma Cambará do Sul em palco para encontros entre música instrumental, natureza e turismo cultural na Serra Gaúcha
Quando a noite cai sobre os Campos de Cima da Serra, o silêncio normalmente domina a paisagem. Em junho, porém, Cambará do Sul trocará o som do vento entre araucárias pela vibração dos saxofones, pelo peso emocional do blues e pela liberdade criativa do jazz contemporâneo. Cercada pelos cânions que transformaram a cidade em um dos destinos turísticos mais emblemáticos do Brasil, a Serra Gaúcha ganhará também um novo território cultural com a estreia do Cambará Jazz Festival.
Nos dias 5 e 6 de junho, a Rua Coberta de Cambará do Sul receberá sete shows gratuitos reunindo artistas do Brasil, França, Honduras e Estados Unidos em uma programação que atravessa jazz, blues, choro e música instrumental contemporânea. Mais do que um festival, o projeto nasce como uma experiência que aproxima paisagem, identidade regional e diversidade sonora em um dos cenários naturais mais impressionantes do país.
“A primeira edição do Cambará Jazz Festival vai se destacar por duas características: a potência da natureza de Cambará do Sul e a diversidade da programação musical do festival”, afirma o compositor e violonista Mathias Behrends Pinto, um dos idealizadores do evento ao lado do produtor cultural Carlos Branco.
A estreia do festival simboliza também um movimento crescente da cena cultural brasileira: a descentralização da música instrumental dos grandes centros urbanos. Historicamente associada a teatros e clubes das capitais, a linguagem do jazz passa agora a dialogar com territórios turísticos e experiências ligadas à paisagem, aproximando cultura e natureza em uma mesma narrativa.
A abertura do festival, na sexta-feira (5), será marcada pelo experimentalismo do duo francês NoSax NoClar, formado por Julien Stella e Bastien Weeger. Em cena, clarinetes, clarinetes baixos e saxofones exploram texturas sonoras pouco convencionais em apresentações guiadas pela improvisação e pela liberdade criativa.
Na sequência, o M7 Trio aproxima o público das raízes brasileiras ao unir o violão de Mathias 7 Cordas, o acordeon de Samuca e o trompete de Bruno Silva em releituras sofisticadas de mestres como Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Radamés Gnattali. O concerto evidencia como o choro brasileiro compartilha com o jazz elementos como improviso, virtuosismo e diálogo coletivo entre músicos.
Ainda na sexta-feira, o espetáculo “Miles + Coltrane 100 Anos”, liderado pelo pianista Ras Vicente, revisita a histórica parceria entre Miles Davis e John Coltrane, dois dos artistas mais revolucionários da música do século XX. O repertório percorre composições que marcaram a transição do hard bop para o jazz modal e o post-bop, estilos fundamentais para a evolução do gênero.
Fechando a primeira noite, a cantora Indiana Nomma, nascida em Honduras e radicada em São Paulo, apresenta um tributo às grandes vozes femininas do jazz, como Ella Fitzgerald e Billie Holiday, ampliando o caráter internacional da programação.
No sábado (6), o festival mergulha em sonoridades ainda mais amplas. O Wil Bordieri Organ Trio abre a noite reinterpretando clássicos de Stevie Wonder, Beatles, George Benson, Wes Montgomery e Lou Donaldson em versões carregadas de groove, soul e improvisação contemporânea.
Depois, Renato Borghetti sobe ao palco acompanhado de Neuro Junior e Pedro Borghetti em uma apresentação que conecta vaneirões, milongas e xotes gaúchos a ritmos latino-americanos como chamamé, polcas e candombes. Em meio ao acordeon e ao violão de sete cordas, o espetáculo transforma a música regional em linguagem universal.
O encerramento ficará a cargo do guitarrista e cantor norte-americano Kirk Fletcher, um dos nomes mais respeitados do blues contemporâneo. Nascido em Los Angeles e radicado em Nashville, Fletcher sobe ao palco acompanhado pela Bruno Marques Band trazendo à Serra Gaúcha a intensidade do blues elétrico americano combinada a elementos contemporâneos.
“Neste festival, buscamos unir as belezas naturais abundantes da região, principalmente os cânions, a um evento de qualidade, com o objetivo de atrair mais turistas e também possibilitar ao público local o acesso a gêneros musicais diferentes e de grande qualidade”, destaca Carlos Branco, curador e produtor do evento.
Com realização da Branco Produções e da Som Brasil Produtora, o Cambará Jazz Festival conta com patrocínio da Rio Grande Seguros e Previdência, por meio da Lei Rouanet, apoio da Prefeitura de Cambará do Sul e realização do Ministério da Cultura/Governo Federal.
Entre cânions cobertos pela neblina, noites frias e improvisos musicais, Cambará do Sul estreia um festival que transforma a Serra Gaúcha em ponto de encontro entre natureza monumental e música de dimensão internacional — um lugar onde o jazz deixa de ser apenas espetáculo para se tornar parte da própria paisagem.(Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)
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