Segunda-feira, 01 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 1 de junho de 2026
Em uma medida que afeta de forma desproporcional mulheres e oficiais de minorias raciais, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, bloqueou recentemente a promoção de pelo menos sete oficiais da Marinha que haviam sido selecionados por um conselho formado por almirantes de alta patente. O resultado da intervenção foi uma lista de 22 indicados ao posto de contra-almirante (uma estrela) que pouco se assemelha à composição da força que esses oficiais ajudarão a comandar. Dos sete oficiais retirados da lista, pelo menos dois são mulheres, dois são homens negros e três são homens brancos.
As ações de Hegseth, que parecem contrariar as regras que regem um sistema de promoções supostamente baseado no mérito e livre de interferência política, foram relatadas por quatro autoridades atuais e ex-integrantes da área de Defesa, que falaram sob condição de anonimato.
Nenhuma mulher foi incluída na nova lista de oficiais promovidos ao posto de uma estrela, divulgada publicamente no fim de maio, apesar de elas representarem cerca de 21% da Marinha em serviço ativo. A lista parece incluir apenas dois oficiais não brancos, embora militares de minorias raciais correspondam a cerca de 38% do efetivo ativo da Marinha.
Segundo autoridades atuais e ex-integrantes do Departamento de Defesa, a remoção desses nomes da lista é altamente incomum. Pelas regras do Pentágono, o secretário de Defesa só pode excluir oficiais da lista por falhas morais, mentais, físicas ou profissionais que levantem dúvidas sobre sua aptidão para exercer funções de liderança.
As decisões de Hegseth são as mais recentes de uma série de demissões e intervenções em quadros militares que, segundo críticos, parecem motivadas por sua oposição a políticas de diversidade, e não pelo desempenho dos oficiais. Em conjunto, essas medidas podem remodelar os altos escalões das Forças Armadas por muitos anos.
Sean Parnell, principal porta-voz do Pentágono, se recusou a explicar por que Hegseth retirou os oficiais da lista.
“As promoções militares são concedidas a quem as conquista. O departamento jamais considerará a cor da pele ou o gênero de um militar como fator para promoções”, afirmou.
A Marinha americana não comentou o caso.
Desde que assumiu o cargo, Hegseth demitiu ou afastou quase três dezenas de oficiais-generais como parte de uma campanha mais ampla para remover do Pentágono líderes que ele classificou como “tolos”, “imprudentes” ou “woke”. O secretário tem se recusado sistematicamente a explicar por que decidiu demitir oficiais ou excluí-los de listas de promoção.
Segundo críticos, o escrutínio tem recaído de forma desproporcional sobre mulheres e integrantes de minorias raciais. Quase 60% dos oficiais-generais demitidos por Hegseth eram mulheres ou negros, afirmou o senador Jack Reed durante um depoimento recente no Senado. Atualmente, mulheres e minorias representam menos de 20% dos generais e almirantes das Forças Armadas americanas.
“Você está esvaziando o quadro de oficiais mais experientes e de melhor desempenho das Forças Armadas, ao mesmo tempo em que faz jovens militares questionarem se devem continuar servindo”, disse Reed a Hegseth em outra audiência.
Entre os demitidos estavam Charles Q. Brown Jr., o segundo afro-americano a comandar o Estado-Maior Conjunto dos EUA, e Lisa Franchetti, a primeira mulher a liderar a Marinha americana.
No início deste ano, Hegseth também retirou quatro coronéis — dois homens negros e duas mulheres — da lista do Exército para promoção ao posto de general de uma estrela, apesar da oposição do secretário do Exército, Daniel P. Driscoll. Driscoll afirmou que os oficiais tinham histórico exemplar e não haviam cometido qualquer irregularidade.
Os oficiais selecionados para o posto de uma estrela são escolhidos por conselhos de almirantes ou generais que analisam centenas de dossiês ao longo de reuniões que podem durar até duas semanas. Apenas cerca de 5% dos elegíveis são promovidos, tornando esse um dos processos mais competitivos das Forças Armadas americanas.
As listas passam então pela análise dos secretários de cada força e do secretário de Defesa, que, segundo as regras do Pentágono, só podem excluir nomes em circunstâncias limitadas, como o surgimento de novas informações que coloquem em dúvida a qualificação do oficial para o cargo.
Autoridades militares afirmam que a imprevisibilidade das intervenções de Hegseth criou um ambiente de ansiedade e desconfiança entre os altos escalões das Forças Armadas.
No fim de maio, Jessica Ruttenber, que se aposentou como tenente-coronel e pilotou aviões-tanque da Força Aérea no Iraque e no Afeganistão, percebeu a ausência marcante de mulheres na lista de promoções da Marinha ao posto de uma estrela. Naquele momento, ela ainda não sabia que Hegseth havia retirado mulheres da lista.
“As Forças Armadas que deixei em 2021 parecem muito diferentes das que estamos observando hoje”, escreveu em um artigo publicado na internet. “Em alguns aspectos, parece que estamos vendo anos de avanços conquistados com dificuldade retrocederem em tempo real. Essa é a parte que não consigo ignorar. Porque, sendo sincera, agora me pego perguntando: eu gostaria que meus próprios filhos ingressassem em um sistema como este?”, questionou. As informações são do jornal The New York Times.
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