Domingo, 07 de junho de 2026
Por Renato Zimmermann | 7 de junho de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Neste domingo, enquanto escrevo mais uma reflexão sobre sustentabilidade, energia e desenvolvimento, percebo que existe um sentimento silencioso percorrendo o Rio Grande do Sul. É um sentimento compreensível, humano e profundamente enraizado na memória coletiva. Trata-se do receio que reaparece sempre que especialistas mencionam a possibilidade de um novo El Niño, sempre que as previsões indicam chuvas acima da média ou quando imagens das enchentes históricas que devastaram comunidades inteiras retornam aos noticiários e às redes sociais. Afinal, ainda estamos processando um dos maiores desastres climáticos da história do Estado, e é natural que a simples possibilidade de eventos semelhantes desperte preocupação.
O El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, influencia padrões climáticos em diversas regiões do planeta e costuma aumentar a ocorrência de chuvas no Sul do Brasil. Entretanto, sua existência não representa uma sentença nem uma previsão inevitável de tragédias. Ele é um dos elementos observados pela ciência para compreender tendências e cenários futuros. O problema é que, em uma época marcada pelo excesso de informações, muitas vezes a sociedade acaba navegando entre dois extremos igualmente prejudiciais: o alarmismo que transforma qualquer previsão em catástrofe anunciada e o negacionismo que despreza evidências científicas consolidadas.
Infelizmente, a ciência tem sido tratada de forma injusta em muitos debates contemporâneos. Quando pesquisadores, meteorologistas ou climatologistas alertam para riscos potenciais, frequentemente são acusados de exagero. Quando os fenômenos previstos não ocorrem exatamente na intensidade projetada, suas análises são utilizadas como argumento para desacreditar todo o trabalho científico. No entanto, previsões climáticas não são exercícios de adivinhação. Elas são construídas a partir de modelos matemáticos, observações de campo, séries históricas e processamento de grandes volumes de dados. A ciência trabalha com probabilidades e cenários, justamente para que governos, empresas e cidadãos possam se preparar adequadamente para enfrentar possíveis desafios.
Essa resistência em aceitar evidências científicas muitas vezes encontra explicação em interesses econômicos e políticos. Reconhecer os impactos ambientais causados pela ação humana significa admitir que determinados modelos de produção e consumo precisam evoluir. Significa compreender que o crescimento econômico não pode continuar baseado exclusivamente na exploração ilimitada dos recursos naturais. Para alguns setores, essa discussão representa ameaça a privilégios, mercados consolidados e estruturas de poder. Por isso, não faltam narrativas que procuram minimizar problemas ambientais, desacreditar pesquisadores ou transformar a sustentabilidade em uma suposta barreira ao desenvolvimento, quando na realidade ela é uma condição indispensável para sua continuidade.
Ao mesmo tempo, não podemos permitir que o medo paralise nossa capacidade de agir. O Rio Grande do Sul aprendeu lições duras e dolorosas. Municípios revisaram protocolos de emergência, ampliaram sistemas de monitoramento, fortaleceram estruturas de resposta e passaram a discutir com mais seriedade a necessidade de adaptação climática. Ainda há um longo caminho pela frente, mas já existe uma consciência coletiva maior sobre a importância do planejamento, da prevenção e da resiliência.
Nesse contexto, acredito que o Brasil possui uma oportunidade extraordinária de transformar desafios em soluções. Como desenvolvedor de negócios sustentáveis e defensor da democratização do setor elétrico, sempre sustentei que todo cidadão deveria ter o direito de produzir sua própria energia, seja no telhado de sua residência, de seu comércio ou de sua propriedade rural. Da mesma forma, acredito que devemos avançar para um modelo em que a energia possa ser compartilhada entre vizinhos, comunidades e empresas por meio de redes elétricas inteligentes, tornando o sistema mais eficiente, resiliente e democrático. Em um futuro cada vez mais eletrificado, no qual veículos elétricos abastecerão não apenas a mobilidade das famílias, mas poderão também contribuir para a estabilidade da rede, o consumidor deixará de ser apenas consumidor para se tornar protagonista da transformação energética.
Modernizar a infraestrutura elétrica brasileira não é apenas uma questão tecnológica ou econômica. É uma estratégia de adaptação climática, segurança energética e desenvolvimento sustentável. Redes inteligentes, geração distribuída, armazenamento de energia, mobilidade elétrica e fontes renováveis representam ferramentas concretas para construir cidades mais preparadas para enfrentar eventos extremos e, ao mesmo tempo, ampliar oportunidades econômicas e sociais.
A chuva poderá voltar com intensidade. Novos desafios certamente surgirão. Entretanto, a resposta não está em desacreditar a ciência nem em alimentar o medo permanente. A resposta está em utilizar conhecimento, inovação e cooperação para construir um futuro melhor. Afinal, a história mostra que as sociedades mais fortes não são aquelas que ignoram os riscos, mas aquelas que aprendem com eles. E talvez a maior oportunidade que temos diante de nós seja justamente transformar as cicatrizes do passado em alicerces para um Brasil mais inteligente, mais sustentável e mais preparado para o futuro.
Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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