Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 18 de março de 2016
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
A vida, na verdade, é a soma do que se fez, do que se pensou fazer e do resultado do feito e do não feito. Pode ser que não seja só (?) isso. Justo seria que nesse esforço – entre o pedante e o primário – se agregasse o que, com o passar inatacável do tempo, introduziu-se em nossa memória e redesenhou fatos, agregou circunstâncias, valorizou-nos diante e através de nossas lembranças. De certa maneira, fez do feito o que gostaríamos que tivesse sido. Objetivamente, que fosse.
Com o tempo e a vantagem da longevidade que, por compreensível legítima defesa precoce da existência duradoura, sempre nos parece possível e justo que se alargue indeterminadamente, passamos por feitos e fatos que nem sempre o arquivo do ocorrido consegue preservar com fé. Talvez por que a versão corrigida seja mais agradável na hora de recordar.
Enfim, somos o que lembramos e como lembramos. Sobretudo, quando o decorrer desse valor concreto/abstrato que se chama tempo elastece o espaço que – ninguém sabe bem onde fica – e alarga o repertório do ocorrido, editado espontaneamente no dia-a-dia das “acontecências”, como diria Guimarães Rosa.
Tudo isso veio à tona quando era “bombardeado” por esse tsunami de notícias que inundou o país, a partir da “alvorada policial” do Lula. Não houve quem não aprendesse o que era “condução coercitiva” (no popular, “tem que ir, querendo ou não querendo”). Sobrou advogado que tirou curso em facilidade de Direito, dando entrevista para ensinar o que o próprio não sabia direito.
Não vou me alongar no caso Lula. Muita gente tem tratado do tema. O episódio acirrou a memória e vou me dar ao luxo de revelar o recôndito, sempre tão íntimo, que ela nos está sussurrando; ansiosa por revelar.
É sobre Lula, sim. Em meados da década de setenta, escolhido Ernesto Geisel para assumir a Presidência, convidou o Deputado gaúcho Arnaldo Prieto para ocupar o Ministério do Trabalho que, engenheiro, e articulado político, não era especialista em Direito do Trabalho. Sendo meu amigo, tão pronto recebeu o convite telefonou-me (à época lecionava na Federal e na Católica, onde também era pró-Reitor, com dois ou três livros publicados sobre o tema trabalhista) para que o ajudasse.
Apesar da vida organizada intensa (na Academia ou Advocacia etc), acabei aceitando a função de Secretário Nacional do Trabalho. Empolgou-me o compromisso do Presidente de priorizar o exame da liberação dos Sindicatos sob intervenção do Governo, alegadamente por subversivos, acusação praticamente infundada e até nuns casos ridícula; noutras, idiota.
Em três ou quatro meses, dos duzentos e poucos sob intervenção, conseguimos uma liberação geral. Restou meia dúzia de entidades que não tinham problema político. A intervenção era por improbidade (maracutaia) dos dirigentes. Com essa liberação justa, o Brasil saiu da “lista negra” OIT e até na Assembleia Geral, meses depois, fomos prestigiados e saudados, para o Conselho Diretor do órgão internacional. Mas aí é outra história. Bastante boa, por sinal!
Voltando ao Lula, recordo que um dos sindicalistas que tinha posição crítica e independente, mas que se apercebeu que a gente ia fazer a liberação da vida sindical, foi o Presidente dos metalúrgicos de São Bernardo, Paulo Vidal (se não me engano do sobrenome).
Convidado, pegou firme, conosco, ajudando a agilizar a liberação dos sindicatos (tinha facilidade porque era do ramo). Recordo-me que, num dos encontros em Brasília, um barbudinho, mais pra gordo que pra magro, debutando no sindicalismo – se não me engano membro do Conselho Fiscal – que entrou silente e saiu calado da reunião, era um jovem – segundo o Vidal – promissor. Simplesmente o Lula.
Passados alguns meses, aparecerem, na fábrica em São Bernardo do Campo (não me lembro se era a Volks) panfletos, mobilizando o pessoal para uma greve, se não fosse assegurado um aumento salarial. E marcavam o dia da parada.
O Governo, mesmo sendo o Geisel, um aspirante a democrata, não viu com bons olhos a greve, já que, entre os militares, havia uma forte corrente que a ele se opunha, querendo o endurecimento do regime.
Depois de marchas e contramarchas, chegamos às vésperas da data fatal e se sentia que era preciso abortar pacifica e negocialmente o movimento. Tocou-me, às vésperas do dia “D”, secretamente, encontrar-me no Aeroporto de Congonhas, com o Presidente Vidal, mais um dirigente sindical e o “gordinho barbudinho”.
Uma hora e meia de reunião, chegamos a um acordo: o Governo baixaria um decreto dando um abono especial para os trabalhadores (isso em 48 ou 72 horas) e o Sindicato, simultaneamente, suspenderia o movimento grevista. Aperto de mão, despedida esperançosa.
Valeu a palavra. E como valeu. O Governo e o Sindicato cumpriram o combinado, com a participação do gordinho barbudo. Palavra dada, palavra honrada. Que pena que o poder, sedutor e concessivo, faça tanto mal as pessoas.
Tão boa, saudável e digna a imagem que me vem à memória. Entristece-me ver que a pessoa já foi o que não é mais.
O deslumbramento e o delírio do ter e do poder fizeram dela personagem notória, rumando para o Código Penal. Que pena!
PS: Que historinha mais mal contada essa de o Lula se apresentar como (Ministro) salvador da Pátria, quando, na verdade, o que ele procurava – e a tia Dilma arrumou – era um lugar seguro para fugir da Justiça.
Carlos Alberto Chiarelli
Doutor em Direito
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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