Segunda-feira, 07 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 20 de junho de 2026
A montadora chinesa BYD intensificou, nas últimas semanas, uma ofensiva junto ao governo federal para tentar reverter o fim de benefícios tributários que possui para importação de kits de montagem de carros elétricos.
O movimento abriu uma nova frente de conflito com as demais fabricantes instaladas no País, que acusam a empresa de tentar mudar regras acertadas no ano passado, ameaçando investimentos bilionários já anunciados pela indústria.
O embate ocorre em torno dos chamados kits CKD e SKD, conjuntos de peças importadas usados para montar veículos no Brasil. No sistema CKD, o carro chega completamente desmontado. No SKD, parte dos conjuntos já vem montada. Em ambos os casos, o grau de nacionalização é reduzido em comparação com uma produção tradicional, feita no país.
Em novembro de 2023, o governo decidiu restabelecer gradualmente o Imposto de Importação dos veículos eletrificados. A política previa a volta progressiva da tarifa até atingir o teto de 35%, limite da Tarifa Externa Comum do Mercosul. Em julho de 2025, após pressão das montadoras, o Gecex (Comitê-Executivo de Gestão da Camex) antecipou para janeiro de 2027 a alíquota cheia para kits CKD e SKD, que originalmente só chegaria a esse patamar em julho de 2028.
Foi criada, ainda, uma cota temporária de importação com imposto zerado entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, equivalente a US$ 463 milhões (R$ 2,3 bilhões). Segundo a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), esse mecanismo representou uma renúncia de aproximadamente US$ 102 milhões (R$ 525 milhões) em arrecadação e acabou sendo aproveitado por poucas empresas.
Tarifa integral
A partir de julho deste ano, os carros elétricos importados e prontos passarão a pagar tarifa integral de 35%. Já os kits CKD e SKD chegam à alíquota cheia em janeiro de 2027.
A Anfavea calcula que a manutenção das benesses para kits importados pode causar uma perda potencial de R$ 96,8 bilhões em vendas para a indústria de autopeças, redução de R$ 24,3 bilhões em arrecadação e eliminação de cerca de 68 mil empregos diretos e 191 mil vagas em toda a cadeia produtiva.
Tratativas
A BYD tenta convencer o governo a recriar benefícios equivalentes e adiar o aumento da tributação. No dia 20 de maio, o vice-presidente Geraldo Alckmin recebeu no Palácio do Planalto o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, representantes da BYD e do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
Na última semana, houve nova reunião, dessa vez em São Paulo, com o ministro do Desenvolvimento, Márcio Fernando Elias Rosa, no BNDES. O tema registrado foi “atuação da BYD no Brasil”.
As montadoras tradicionais enxergam as reuniões como sinal de que a empresa chinesa tem ganhado espaço dentro do governo para tentar reverter o cronograma definido em 2025. Nos bastidores, executivos relatam preocupação com a possibilidade de o assunto avançar rapidamente dentro da Camex (Câmara de Comércio Exterior).
A expectativa de integrantes do setor é que o tema seja apreciado pelo Gecex na terça-feira (23).
Economia baiana
A defesa do governo baiano em favor da BYD está ligada ao peso do investimento da empresa em Camaçari, na região metropolitana de Salvador.
A montadora chinesa assumiu a antiga fábrica da Ford, fechada em 2021, e anunciou investimentos de R$ 5,5 bilhões para transformar o complexo na maior unidade da companhia fora da Ásia, com capacidade inicial para produzir 150 mil veículos por ano, podendo chegar a 600 mil unidades em fases posteriores.
O projeto é considerado uma das principais apostas econômicas do governador Jerônimo Rodrigues e do ministro da Casa Civil, Rui Costa, ambos do PT baiano, por representar a retomada do polo automotivo do Estado e a recuperação de empregos perdidos após a saída da Ford.
Autopeças
A reação à ofensiva da BYD também mobilizou a indústria de autopeças. Na sexta-feira (19), em carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores) pediu a manutenção integral do cronograma de recomposição das tarifas e se posicionou contra a recriação de cotas ou novos benefícios para kits CKD e SKD.
Na carta, a entidade afirma que as importações já foram favorecidas por uma “enorme renúncia fiscal” e argumenta que a agressividade dos fabricantes chineses vem sendo enfrentada por outros países por meio de tarifas elevadas e medidas antidumping.
No início do ano, presidentes da Volkswagen, Toyota, General Motors e Stellantis enviaram uma carta ao presidente pedindo que o governo não renovasse os benefícios para CKD e SKD. (Com informações da Folha de S. Paulo)
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