Terça-feira, 13 de outubro de 2026

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Colunistas Lagarteando ao Sol

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(Jefferson Bernardes/Arquivo PMPA)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Num domingo de inverno em Porto Alegre, quando o minuano sopra firme e o frio parece não dar trégua, o Sol surge tímido, mas suficiente para transformar o cenário. É curioso como, mesmo fraco, ele se torna protagonista da vida urbana e rural. Basta um raio atravessar as nuvens para que as praças se encham de cadeiras improvisadas, vizinhos se reúnam em rodas de chimarrão e crianças corram atrás de bolas, todas embaladas pela sensação rara de calor.

O gesto de lagartear ao sol, tão gaúcho, é quase um ritual coletivo: esticar-se, relaxar e deixar o tempo passar sob a luz que aquece mais o espírito do que o corpo. A expressão vem do lagarto, que busca o calor solar para se aquecer, e traduz perfeitamente esse costume de aproveitar cada instante de luminosidade no inverno. Entre os hábitos que marcam essa relação, comer bergamota ao sol é talvez o mais emblemático. A fruta, abundante no inverno, é descascada com destreza e compartilhada em rodas de conversa, espalhando seu perfume cítrico no ar gelado.

É um hábito simples, mas carregado de significado: a bergamota combina com o gesto de se aquecer e conviver, tornando-se símbolo de resistência ao frio e de celebração da vida comunitária. O mesmo vale para o chimarrão, que circula de mão em mão, aquecendo tanto quanto o sol de inverno. São práticas que revelam como o gaúcho valoriza cada raio de luz como se fosse um presente.

Do ponto de vista científico, o Sol é uma estrela que libera energia por fusão nuclear, irradiando luz e calor que chegam à Terra em cerca de oito minutos. Essa energia sustenta a fotossíntese, regula os ciclos naturais e mantém a vida. No Sul do Brasil, sua influência se manifesta de forma particular: mesmo tímido, o Sol é essencial para a agricultura, para o crescimento das pastagens e para a maturação de culturas como o trigo. É também fonte de vitamina D, tão necessária para a saúde em uma estação marcada por dias cinzentos. O gaúcho, consciente ou não, sabe que o Sol é vital, e por isso celebra cada aparição como um acontecimento.

Mas além da ciência, há a poesia. O Sol é personagem constante na música brasileira, símbolo de alegria e esperança. No Rio Grande do Sul, ele ganha contornos próprios: é o companheiro da lida campeira, iluminando o amanhecer nas estâncias e o pôr do sol nas coxilhas. É também o pano de fundo das rodas de chimarrão, das cavalgadas e das festas populares. O Sol, mesmo fraco, é celebrado como parte da identidade regional. Ele é o contraponto ao frio intenso, o aliado contra o minuano, o motivo para sair de casa e encontrar os outros.

Num domingo de inverno, Porto Alegre se transforma em palco dessa relação íntima com o Sol. Crianças correm nos parques, idosos se aquecem em bancos de praça, jovens se reúnem para conversar e rir. Todos compartilham o mesmo desejo: aproveitar o pouco calor disponível. É uma cena que mistura ciência, cultura e afeto. O Sol, que é energia e irradiação, torna-se também convivência e tradição. Ele conecta o gaúcho ao seu território, reforça laços sociais e lembra que, mesmo em tempos de frio, há sempre espaço para a luz.

E quase ia esquecendo: o Sol é também a nossa fonte de energia renovável, capaz de iluminar não apenas tardes de inverno, mas o futuro da humanidade. É ele que poderá salvar o planeta do aquecimento global, mostrando que a mesma estrela que dá sabor às bergamotas e rodas de chimarrão pode ser a chave para uma transição energética justa e sustentável. Talvez seja essa a maior lição de um domingo de inverno ao sul do Brasil: o Sol, mesmo fraco, é vital — para a vida, para a cultura e para o futuro.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética. Contato: rena.zimm@gmail.com

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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