Terça-feira, 30 de junho de 2026
Por Tatiane Dias Scotta | 30 de junho de 2026
O autoconhecimento íntimo é o que dá direção ao prazer
Foto: DivulgaçãoEsta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Se você já se perdeu tentando achar aquela pousada charmosa e escondida em Gramado porque o sinal do celular sumiu no caminho, sabe perfeitamente o tamanho do desespero. Agora, imagine passar a vida inteira tentando navegar pelo labirinto do prazer às cegas, sem sinal, sem mapa e dependendo apenas do “palpite” de quem está no banco do carona.
Pois é, meus queridos leitores. Como sexóloga, preciso dizer algo que muitas pessoas ainda resistem em ouvir: cobrar que o seu parceiro adivinhe o caminho exato do seu orgasmo, sem que você mesma saiba onde ele fica, é o equivalente a pedir para ele achar uma rua sem nome, no escuro, em plena noite de neblina fechada na Serra Gaúcha. Convenhamos, não vai dar certo nunca!
O autoconhecimento íntimo é o que dá direção ao prazer. Sem ele, seguimos tentando chegar a um destino sem realmente saber para onde estamos indo.
Mas, antes de entendermos como esse conhecimento se constrói, precisamos falar sobre um problema muito comum: o famoso “manual de instruções em branco”. Recebo muitos casais no consultório, que estão juntos há anos, que chegam a um impasse de comunicação.
O marido, cheio de boas intenções, se esforça como um motorista dedicado, mas reclama: “Ela diz que não está bom, mas não consegue explicar o que faria diferença!”
E a esposa, frustrada, rebate: “Mas ele deveria saber!”.
Pausa dramática para um café.
Cientificamente falando, ninguém nasce com um mapa do corpo alheio implantado no cérebro. As pesquisas em sexualidade mostram que a resposta sexual feminina depende de estímulos específicos, da anatomia individual e da construção gradual do próprio repertório de prazer.
Mulheres, olhem para o próprio corpo com curiosidade e respeito. Existe uma sabedoria nele que ninguém pode descobrir por vocês.
A biologia nos deu o clitóris que é uma estrutura extremamente rica em terminações nervosas, cuja função está diretamente relacionada ao prazer. Mas cada mulher responde de forma diferente aos estímulos. A intensidade, o ritmo e o tipo de toque variam de pessoa para pessoa.
Se você não ligar o seu próprio painel, como vai ensinar o outro a pilotar?
A masturbação consciente é uma oportunidade de observar, sem pressa, como o seu corpo responde aos diferentes estímulos. É um momento de descoberta, não de desempenho. Podemos dizer que nada mais é do que calibrar o satélite do seu GPS.
É descobrir se você prefere a rota expressa ou o caminho panorâmico, que demora mais para chegar, mas tem uma vista espetacular.
Quando você se conhece, a mágica da compatibilidade íntima acontece porque você finalmente deixa de enviar sinais confusos para quem está ao seu lado.
Em vez de dizer um vago e misterioso “assim não está bom”, o autoconhecimento te dá a propriedade de assumir o volante e guiar o parceiro com precisão: “Um pouco mais para a esquerda”, “mais leve agora”, “com mais ritmo”…
Isso não destrói o romantismo de forma alguma. Pelo contrário, constrói cumplicidade e tira um peso gigantesco das costas do seu cônjuge.
A intimidade deixa de ser uma prova de adivinhação estressante e vira uma viagem compartilhada de descobertas.
Aqui vai o meu veredito de sexóloga e o plano de ação prático para vocês levarem para a cama hoje mesmo: mulheres, parem de terceirizar a responsabilidade do seu próprio prazer. O corpo é seu, o mapa é seu, só falta compartilhar de forma objetiva.
Para começar a desenhar esse trajeto, proponho o exercício do “Reconhecimento do Eu”. Tirem um momento sozinhas na semana, sem pressa, sem transformar aquele momento em uma obrigação de atingir o orgasmo. Explore o seu próprio corpo com atenção plena. Descubra quais estímulos, pressões e ritmos despertam a sua melhor resposta física, foque em entender o seu prazer.
Descobriu o caminho? Ótimo.
O segundo passo é o “Copiloto Ativo”. Na próxima noite a dois, guie suavemente a mão do seu parceiro. Mostre a ele, fisicamente e verbalmente, onde ficam as suas curvas mais sinuosas e prazerosas. Perca a vergonha de falar o que é óbvio para você, e que o seu marido ainda não sabe. Elogie algo que ele faz bem e insira as novas coordenadas.
A comunicação clara e sem tabus só nasce quando temos clareza dos nossos desejos. Porque o prazer não começa nas mãos de quem toca. Ele começa na consciência de quem conhece o próprio corpo.
Que nunca faltem afeto, diálogo e conhecimento para construir relações mais íntimas e saudáveis.
Até a próxima consulta.
* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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