Domingo, 05 de julho de 2026
Por Rogério Pons da Silva | 5 de julho de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Sabia que ibas a venir, é uma frase muito simples da língua espanhola que traduzida para o português fica assim:
Sabia que irias voltar
É uma frase aparentemente normal, porém no contexto e na performance dos versos do ilusionista argentino René Lavand tornou-se uma frase extremamente emocionante. Particularmente, considero a mais pura expressão de lealdade.
Hector René Lavandera, nome completo do “mágico” falecido em 2015 aos 80 anos de idade, encantou e emocionou plateias pelo mundo afora com seus espetáculos de ilusionismo.
Ainda menino, René perdeu sua mão direita em acidente automobilístico, uma tragédia para o menino que sonhava ser mágico.
Trabalhou como bancário durante muitos anos e já maduro dedicou-se à arte do ilusionismo, paixão de René desde menino.
Transformou-se em um habilidoso mágico com uma técnica única de manusear cartas com uma só mão.
René Lavand não era apenas um manipulador hábil de cartas, era também um contador de histórias dramáticas e poéticas hipnotizando suas plateias.
Quase sempre ao final de suas apresentações emocionava seu público declamando o mais famoso de seus poemas em prosa:
“Sabia que ibias a venir”
E começava dizendo assim:
“— Esta frase – sabia que irias voltar – me lembra um conto bem curto e dramático, mas, mesmo assim, eu vou dizer!
Vou dizer por que a tragédia também é beleza!
Se não, para que existiu Shakespeare?
Para que ter Beethoven e a sua 9° Sinfonia?
ou para que Picasso em Guernica!?”
Declamava em prosa, sem música ou qualquer outro efeito sonoro, somente sua voz e a magnífica entonação carregada de pura emoção .
Enquanto aguardava o silêncio e a atenção total da platéia, dava uma pequena “bicada” de conhaque.
Transcrevo aqui no original em espanhol de forma que o leitor tenha a melhor percepção do “clima” e dos sentimentos do narrador.
Leia sem pressa e vivencie a cena:
“Había terminado la guerra, la patrulla emprendió la retirada.
Un soldado se acerca al Capitán a pedirle permiso para regresar al campo de batalla a recoger a un amigo caído.
El capitán le niega el permiso:
— No, es inútil que vayas; ya debe estar muerto.
Desobedeciendo la orden, el soldado regresa al campo de batalla.
Tiempo después, regresó trayendo a su amigo en brazos… muerto.
Al verlo, el capitán le dice:
— Te lo advertí… fue inútil que fueras.
Y el soldado responde:
— No, mi capitán, no fue inútil. Cuando llegué, todavía estaba vivo. Me miró y me dijo:
Sabía que ibas a venir”
Por Rogério Pons da Silva
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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