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Geral A Venezuela, dona das maiores reservas provadas de petróleo no mundo, transformou-se ao longo de quase três décadas de chavismo em um país falido

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A Venezuela é dona das maiores reservas provadas de petróleo no mundo. (Foto: Reprodução)

As ruínas de La Guaira, região mais afetada pelos terremotos de 24 de junho passado na Venezuela, são também as ruínas do chamado “socialismo do século 21” – experimento chavista destinado a transformar o país, um dos mais ricos da América do Sul, em uma grande Cuba.

La Guaira concentra moradias populares erguidas com o dinheiro da bonança do petróleo nos tempos do caudilho Hugo Chávez – época na qual o governo venezuelano transformou a PDVSA, estatal petrolífera, na cornucópia que alimentou o projeto revolucionário chavista. Essas moradias foram construídas a toque de caixa pela ditadura bolivariana, sem qualquer preocupação com padrões técnicos – e quem quer que questionasse o governo a esse respeito era logo tratado como “inimigo do povo”. Hoje, sob os escombros desses prédios, estão milhares de pessoas pobres para as quais o “socialismo do século 21” havia prometido a redenção.

A rigor, o tal “socialismo do século 21” não precisava de um terremoto devastador para ser desmoralizado. A Venezuela, dona das maiores reservas provadas de petróleo no mundo, transformou-se ao longo de quase três décadas de chavismo num país falido, cuja economia encolheu brutalmente desde que o modelo de assalto ao Estado inaugurado por Chávez e aperfeiçoado pelo seu sucessor, Nicolás Maduro, mostrou todo o seu potencial. De 2012, um ano antes do início do governo Maduro, até 2020, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita da Venezuela desabou de US$ 12.607 para US$ 1.506. O fundo do poço foi atingido em 2020, com uma retração do PIB estimada em 30%, fenômeno raro em tempos de paz.

A erosão do Estado venezuelano, entregue à rapina bolivariana, cobrou seu preço na forma de um profundo despreparo para enfrentar tragédias como os terremotos de junho. Ficarão para sempre na memória as terríveis imagens de civis venezuelanos cavando os escombros com as próprias mãos em busca de sobreviventes e enterrando seus mortos, já que o governo foi incapaz de fornecer a ajuda necessária.

A corrupção desenfreada e a falta de planejamento adequado mostraram seus resultados: bombeiros sem os equipamentos necessários, hospitais em colapso e prédios que ruíram porque suas estruturas não foram corretamente fiscalizadas. O dinheiro que deveria financiar toda a arquitetura estatal requerida para essas múltiplas necessidades foi desviado para alimentar a máquina do poder chavista.

E parece ser apenas com isso que a presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, está preocupada. Ela está mais empenhada em sufocar a perturbação social como consequência da tragédia do que em mobilizar o aparato estatal para socorrer as milhares de vítimas dos terremotos. Consta que militares, indissociáveis do regime, reprimiram voluntários em vez de auxiliá-los. Não à toa, em recente visita a um dos locais atingidos, Delcy foi vaiada.

A Venezuela passa por uma transição política relevante, desde que os Estados Unidos capturaram o ditador Nicolás Maduro, em janeiro passado, a pretexto de julgá-lo por tráfico de drogas. Em seu lugar, o governo americano instalou Delcy, então vice-presidente, no poder – e sobre ela exerce tutela de forma explícita. Não se trata de mudança de regime, porque para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não interessa que a Venezuela seja reconvertida à democracia. A única coisa que importa a Trump é a transformação da Venezuela em vassalo dos Estados Unidos e a captura de suas riquezas naturais, sobretudo o petróleo.

Nesse processo, Delcy não tem o menor interesse em desmontar a máquina de repressão e controle do chavismo. Pelo contrário: a presidente aceita alegremente o papel de fantoche dos Estados Unidos porque tem projetos próprios para imprimir sua marca na história do chavismo. Tudo ia bem, com a retomada de investimentos no setor de petróleo a mando dos Estados Unidos, até que veio o terremoto – que pôs abaixo, sem piedade, a fantasia do bolivarianismo. (Opinião/Jornal O Estado de S. Paulo)

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