Segunda-feira, 06 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 6 de julho de 2026
A derrota da Seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026 por de 2 a 1 nas oitavas-de-final, o pior desempenho dos brasileiros no torneio desde 1990, é mais um capítulo que deve entrar para a história das derrotas mais dolorosas do escrete nacional.
Neste ano, a derrota tem ainda o sabor do jejum: a Seleção canarinho chegara à próxima Copa, em 2030, com um hiato de 28 anos sem erguer a taça — o que nunca ocorreu desde que o time brasileiro foi campeão pela primeira vez, em 1958.
Não tem como fugir dos números. Se o Brasil é o único país a participar de todas as 23 edições da Copa, além de ser o maior campeão — ergueu a taça cinco vezes —, é natural que tenha sofrido 18 dolorosas eliminações. Destas derrotas, com a ajuda de especialistas, a BBC News Brasil elencou as mais traumáticas.
2014: Gooool da Alemanha
A festa era grande, o Brasil sediava uma Copa do Mundo 64 anos depois da única vez que isso havia ocorrido, em 1950. O time comandado pelo técnico de Luiz Felipe Scolari, se não era unanimidade, tinha ingredientes o suficiente para empolgar — inclusive pela memória afetiva, já que o treinador era o mesmo que havia conquistado o penta em 2002.
Depois de uma primeira fase em que o Brasil ganhou da Croácia — 3 a 1, de virada —, empatou com o México sem gols e goleou Camarões por 4 a 1, o time venceu o Chile nos pênaltis — depois de empatar em 1 a 1 durante a partida — e a Colômbia por 2 a 1.
Na semifinal, encararia a Alemanha no Estádio do Mineirão, em Belo Horizonte. Foi uma tragédia inesquecível: 7 a 1 para o time europeu, que se sagraria campeão dias depois, vencendo a Argentina na final.
O Brasil já perdia por um a zero e tomou outros quatro gols entre os minutos 23 e 29 do primeiro tempo — provavelmente no mais catastrófico “apagão” da história do escrete canarinho. O Brasil ainda perderia para a Holanda na disputa do terceiro lugar — outra goleada, mas mais modesta: “apenas” 3 a 0.
“Foi um balde de água fria, aquele desastre tático”, diz o historiador Marcel Tonini, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador no Centro de Referência do Futebol Brasileiro, do Museu do Futebol (CRFB). “E eles tiraram o pé, senão seria ainda maior a goleada.”
Para o jornalista e pesquisador Celso Unzelte, comentarista da ESPN, consultor do Museu do Futebol, membro da Academia Brasileira de Letras do Futebol e professor na Faculdade Cásper Líbero o marcante da derrota para a Alemanha não foi a derrota em si — mas sim a diferença de gols, “a maneira como o resultado aconteceu”. “Perder para a Alemanha seria um resultado absolutamente normal. O placar é que não foi”, pontua.
“Foi a pior derrota não apenas pelo placar, mas por tudo o que envolvia aquele jogo”, diz o especialista em marketing esportivo Marcelo Paganini de Toledo, professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
“Estávamos jogando uma Copa em casa, havia uma expectativa enorme da torcida e poucos imaginavam um resultado daquela dimensão. Foi uma derrota que ultrapassou o aspecto esportivo e se transformou em um choque para o país.”
Também professor de marketing esportivo na ESPM, o administrador de empresas Ivan Martinho explica o misticismo negativo em torno do 7 a 1. “A seleção brasileira é um dos raros elementos capazes de unir um país tão diverso. Durante a Copa, existe no imaginário coletivo uma expectativa quase inevitável de vitória”, contextualiza.
“O 7 a 1 foi tão marcante porque representou exatamente o oposto disso: em casa, diante do próprio povo, um símbolo nacional de excelência sofreu uma derrota sem precedentes”, acrescenta. “Mais do que um resultado, foi um choque cultural para o Brasil.”
Como “o tempo passou, as pessoas também”, Unzelte acredita que o 7 a 1 contra a Alemanha em 1954 vieram para apagar o epíteto de “maior derrota” que era dado para o Maracanaço. “Esportivamente foi pior do que o Maracanaço. Mas pelo contexto social e político, eu diria que o Maracanaço foi pior”, comenta Tonini.
O Maracanaço
Era um regulamento diferente o daquela Copa de 1950. Em vez de um jogo final, o campeão seria decidido depois de partidas em um quadrangular com os finalistas. Brasil, Espanha, Suécia e Uruguai chegaram a essa fase.
Antes do derradeiro jogo, o Brasil tinha um ponto a mais que o Uruguai. A partida lotou o recém-inaugurado Maracanã, estádio que então era o maior do mundo — e que foi construído justamente para a Copa do Mundo. Havia um clima de “já ganhou” entre torcedores e imprensa esportiva brasileira.
A partida foi dura. Mas o placar foi aberto pelo Brasil, com o ponta-direita Friaça, logo no comecinho do segundo tempo. O Uruguai, aguerrido, não desitiu. Empatou em gol anotado por Schiaffino e, faltando pouco mais de 10 minutos para o apito final, sacramentou a vitória com Ghiggia. Silêncio absoluto nas arquibancadas. O time celeste se sagraria bicampeão mundial. O Brasil ainda ficaria no jejum.
Pelo contexto social, político e econômico da época, o historiador Tonini acredita que a mais traumática derrota do Brasil em Copas tenha sido esta.
“Era evidente que a Europa não iria sediar a Copa [ainda por conta dos estragos da Segunda Guerra] e o Brasil se colocava um passo à frente e consegue sediar o evento”, pontua ele. “Queria se mostrar para o mundo como o país do futuro e o símbolo disso foi a construção do maior estádio do mundo, o Maracanã.”
“E tinha uma grande seleção”, acrescenta.
Ele destaca ainda um aspecto simbólico. O Brasil começou aquele campeonato com um discurso de enaltecimento do que se entendia como “país da democracia racial” — naquele contexto pós-Holocausto vivido pela Segunda Guerra. “Eles chamavam de paraíso racial”, explica.
Com a derrota, a imprensa passou a culpar três jogadores de forma especial: Bigode (1922-2003), Juvenal (1923-2009) e Barbosa (1921-2000). Como observa o historiador, os três eram negros. “No final, o que era para enaltecer a democracia racial vira algo como ‘não se dá para confiar em negros'”, relata o historiador.
“O goleiro Barbosa foi o bode expiatório. Ele, um homem negro, pobre e estigmatizado, num país cuja herança da escravidão estruturava as desigualdades raciais e sociais”, ressalta o sociólogo Rogério Baptistini, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
“Na minha ótica, a derrota de 1950 foi a pior derrota do Brasil”, crava Tonini. “Acredito que esta foi a maior derrota, a que cravou na alma dos brasileiros”, concorda Baptistini. “É dessas derrotas fundadoras.”
O dia da convulsão
Era o atual campeão do mundo contra a seleção que jogava em casa. Embora aquele time comandado por Mário Jorge Lobo Zagallo (1931-2024) não fosse considerado um primor, era visto por muitos como o elenco a ser batido.
Pouco antes do início da partida, especulou-se que Ronaldo, o principal astro daquele time, não entraria em campo porque havia sofrido um episódio de convulsão — em seu lugar chegou a ser anunciado que jogaria Edmundo. Na hora agá, Ronaldo entrou como titular. Mas ao que parecia aquele time estava abalado psicologicamente.
Foi um show de bola sob a liderança do jogador francês Zinédine Zidane em 12 de julho de 1998. O placar final, 3 a 0, entrou para a história: marcaria o primeiro título mundial do selecionado francês.
“Foi uma decepção. Chegamos à final depois de grandes jogos. E aí aconteceu aquele episódio com o Ronaldo que até hoje a gente não entendeu”, comenta Tonini. “No fim, sobrou a imagem de que poderíamos ter vencido.”
“A derrota ficou marcada pela até hoje inexplicada convulsão do Ronaldo Fenômeno na véspera da final contra a França. Mas a França foi mesmo melhor, o placar final de 3 a 0 não deixa margem nenhuma de dúvida em relação a isso”, afirma Unzelte.
“A convulsão, as mudanças na escalação e todas as dúvidas que surgiram acabaram dominando o noticiário e a nossa cabeça. A impressão era de que algo diferente havia acontecido antes mesmo da bola rolar, e isso fez daquela derrota certamente uma das mais enigmáticas da história da seleção”, analisa Toledo. As informações são da BBC News.
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