Quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 11 de agosto de 2026
No final de junho, os Estados Unidos permitiram que algumas bolsas de nicotina sejam comercializadas como menos nocivas do que os cigarros, parte de uma estratégia de redução de danos. No Brasil, os produtos, também conhecidos como sachês, não são permitidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas o órgão deu início a um processo de análise regulatória que pode abrir caminho, ou não, para uma aprovação futura.
A indústria tem investido nos sachês como uma alternativa melhor por não terem as substâncias presentes no tabaco e geradas pela queima e não serem consumidos via inalação. Além disso, mesmo sem regulamentação, é possível encontrar produtos online à venda decorrentes do contrabando.
Parte dos especialistas, no entanto, vê o cenário com cautela e acredita que a entrada no Brasil pode gerar uma nova geração de dependentes de nicotina devido ao apelo entre os mais jovens, em vez de reduzir o uso do cigarro convencional.
O produto é uma mistura em pó feita a partir da nicotina extraída das folhas de tabaco ou da nicotina sintética junto com substâncias como adoçantes, aromatizantes, saborizantes e outros aditivos. O conteúdo é embalado como um sachê que se dissolve ao ser colocado entre o dente e a gengiva. São novas versões do “snus”, sachê original desenvolvido na Suécia, mas que é feito com tabaco úmido.
Nos EUA, os produtos já são aprovados, e a Food and Drug Administration (FDA) emitiu uma autorização de “risco modificado” para 20 sachês da marca ZYN, da Philip Morris, que agora poderão carregar uma alegação de que “usar ZYN em vez de cigarros coloca você em menor risco de câncer de boca, doenças cardíacas, câncer de pulmão, acidente vascular cerebral (AVC), enfisema e bronquite crônica”.
A agência reforça que os produtos, em versões com sabores como menta, citrus e café e contendo de 3 mg a 6 mg de nicotina, não são isentos de riscos e não devem ser consumidos por quem não utiliza tabaco, mas alega que podem ser considerados como uma alternativa para “reduzir a exposição a muitas das substâncias químicas nocivas presentes nos cigarros”.
Outro formato que tem crescido é o dos dispositivos de tabaco aquecido, como o IQOS, da mesma Philip Morris, e o glo, da British American Tobacco. Neles, o conteúdo é aquecido entre 250 e 350 °C, bem abaixo dos 700 a 900 °C do cigarro tradicional.
Cenário brasileiro
No Brasil, segundo a Anvisa, não há nenhuma bolsa de nicotina autorizada para venda. Além disso, não há regras específicas para os produtos devido a uma questão de classificação regulatória, já que eles não se enquadram na categoria do cigarro ou dos vapes. Por isso, o tema entrou na agenda regulatória para 2026-2027 da autarquia.
Em nota, a Anvisa diz que “a revisão não tem como objetivo regularizar os sachês, mas analisar o enquadramento desses produtos” na legislação sanitária brasileira. A análise “busca tratar a questão sob a ótica técnica e sanitária”, complementa. Uma consulta pública já foi realizada pela agência, e um relatório será elaborado em breve.
A Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro sobre Controle do Uso do Tabaco e de seus Protocolos (Conicq) se posicionou de forma contrária à liberação, conta a secretária executiva, Vera Luiza da Costa e Silva, pesquisadora da Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde da Fiocruz (Cetab):
“Não temos hoje comprovação científica de que os usuários de tabaco realmente trocam o cigarro pelos sachês. E são produtos muito atraentes para crianças e adolescentes, que funcionam como uma porta de entrada para a dependência de nicotina. Seria trocar uma epidemia de cigarros por uma de nicotina, que envolve os cigarros, mas também os vapes e os sachês.”
Ainda assim, já é possível encontrar produtos online à venda decorrentes do contrabando. Uma pesquisa patrocinada pela Philip Morris e conduzida pela Escola de Segurança Multidimensional da USP, em parceria com a Ipsos, entre agosto e setembro de 2025, apontou que 3% da população adulta consumiu os sachês nos últimos seis meses.
Pelo mundo, cerca de 160 países não possuem regulamentações específicas para os sachês, como o Brasil, enquanto 16 proíbem a sua comercialização e 32 regulamentam de alguma forma. Nesses, 5 restringem os sabores e 21 vetam publicidade, segundo um relatório divulgado em maio pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Em nota, a Philip Morris diz acompanhar a análise da Anvisa e que “contribui para o debate técnico sempre que oportuno, com base em evidências científicas e na experiência observada em diferentes mercados”. Outra grande empresa do setor, a British American Tobacco (BAT), responsável pela bolsa de nicotina da marca Velo, afirma acreditar na “regulação responsável e baseada em evidências científicas”.
“A ausência de combustão é sim um componente importante nessa discussão, porque ela libera uma série de substâncias tóxicas que vão além da nicotina. Por isso, os sachês são uma estratégia possível de ser avaliada como redução de danos. Ainda tem nicotina, ainda causa dependência, não é um produto seguro, mas o propósito é trocar o cigarro por uma alternativa melhor e tratar a dependência a longo prazo”, defende Bruno Dias, pneumologista do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCUSP) e do Hospital Nove de Julho.
A indústria do tabaco tem apostado em alternativas que deixam de lado a combustão e prometem menos danos, como os cigarros eletrônicos e, agora, os sachês. Um dos principais argumentos é que é melhor regulamentar o consumo, para evitar contrabando e produtos irregulares. No Brasil, os vapes são proibidos desde 2009, e a Anvisa, após amplo debate com especialistas e a sociedade civil, manteve a proibição em 2024. As informações são do jornal O Globo.
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