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Mundo Islandeses votam “não” a negociações de adesão à União Europeia

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Preocupações com pesca e soberania superam tumulto geopolítico na região do Ártico. (Foto: Reprodução/Al Jazeera)

A Islândia recusou em votação retomar as negociações de adesão com a União Europeia. Segundo a emissora pública RÚV, o “não” alcançou 52,8% dos votos, contra 47,2% do “sim”. O plebiscito, ocorrido no sábado (29), mobilizou 225.301 eleitores, 82,5% do total. É a maior participação desde as eleições parlamentares de 2009, sinal eloquente de como o tema movimentou a sociedade local.

Segundo analistas, prevaleceu a preocupação com a pesca, responsável por 40% das exportações e 15% do PIB do país, que teria de se submeter a regras rígidas estabelecidas por Bruxelas, como cotas e áreas de captura mais limitadas. O tema também reflete a profunda preocupação com soberania que os islandeses cultivam em seu remoto e pequeno território, no meio do Atlântico Norte.

Após a divulgação do resultado, a primeira-ministra declarou que “o governo não retomará as negociações com a UE durante esta legislatura”. Segundo Frostadóttir, que foi ativa na campanha pelo “sim”, o plebiscito era uma “vitória da democracia”, repetindo a promessa de que sua gestão respeitaria o resultado.

“Vamos trabalhar agora para fortalecer o EEA”, afirmou a política de centro-esquerda, em referência à Área Econômica Europeia, grupo ao qual pertencem Islândia, Noruega e Lichtenstein, uma versão light de associação comercial com a UE. O país também compõem o Espaço Schengen, o acordo de livre circulação europeu.

Bruxelas chegou a ventilar que poderia fazer concessões inéditas no âmbito econômico e que a Islândia teria acesso mais barato e seguro a serviços e alimentos, mas os argumentos não vingaram. Porta-voz de António Costa, presidente do Conselho Europeu, declarou que a Islândia “continua um dos aliados mais próximos e confiáveis da UE”.

Soberania

Ainda que boa parte da campanha tenha versado sobre assuntos domésticos, o principal gatilho para a consulta popular foram as reiteradas ameaças de Donald Trump à vizinha Groenlândia, distante cerca de 300 km do país.

Em um dos tantos lapsos que cometeu nos últimos tempos, o presidente americano trocou o nome do território autônomo pertencente ao Reino da Dinamarca pelo da Islândia em manifestações à imprensa e discursos.

Em março, a situação chegou a tal ponto que o gabinete da primeira-ministra, Kristrún Frostadóttir, encontrou espaço político para convocar o plebiscito. “Este é um grande dia; há anos que esperávamos por isso para poder realizar uma votação”, disse a política na manhã de sábado, logo após depositar seu voto na urna, na capital, Reykjavik.

Suspenso após as eleições de 2013, o processo de adesão era uma disputa política interna adormecida até Trump voltar à Casa Branca, no começo do ano passado. A primeira tentativa de negociação com a UE foi iniciada em 2009, devido aos estragos da crise financeira global desencadeada por uma bolha imobiliária nos EUA.

Além das bravatas expansionistas do presidente americano, as investidas de Rússia e China pelo Ártico, cada vez mais acessível devido às mudanças climáticas, concorreram para a retomada do assunto.

Argumentos

Os defensores do “Não” afirmaram que a adesão à UE ameaçaria a soberania da ilha e suas águas de pesca que, além de atividade econômica importante, é um dos fundamentos de sua identidade cultural. A Islândia é um dos três países do mundo que ainda permitem a caça de baleias.

Militantes do “Sim”, principalmente os eleitores mais jovens, trabalharam a perspectiva de ganho econômico com a adesão. O euro é mais estável do que a moeda local, a coroa islandesa, e a inflação do bloco é mais baixa, assim como os custos de crédito e habitação.

Os defensores também alegavam que a adesão ao bloco ofereceria mais segurança em um mundo instável devido à guerra na Ucrânia e à retórica do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a anexação de outra ilha do Ártico, a Groenlândia.

Atrativos que não convenceram a maioria dos islandeses, em um revés mais do que simbólico para a UE. Nos próximos meses e em 2027, vários países do bloco, como Alemanha, França, Espanha, Polônia e Itália enfrentam eleições importantes com populistas de direita e extrema direita bem posicionados.

Boa parte deles com discurso avesso à integração do bloco, como a AfD, que defende, por exemplo, a volta do marco alemão. (As informações são da Folha de S. Paulo e g1)

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