Segunda-feira, 07 de setembro de 2026

Porto Alegre
Porto Alegre, BR
Mostly Cloudy

CADASTRE-SE E RECEBA NOSSA NEWSLETTER

Receba gratuitamente as principais notícias do dia no seu E-mail.
cadastre-se aqui

RECEBA NOSSA NEWSLETTER
GRATUITAMENTE

cadastre-se aqui

Saúde Câncer de pâncreas: por que o tumor de menor sobrevida quase sempre é descoberto tarde

Compartilhe esta notícia:

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) projeta mais de 13 mil novos casos de câncer de pâncreas por ano no Brasil entre 2026 e 2028. (Foto: Reprodução)

Elizabeth Paes Gomes tinha uma explicação confortável para as próprias dores. Havia anos, os gastroenterologistas que a acompanhavam diziam a mesma coisa: gastrite, sistema nervoso, nada grave. Quando o desconforto apertou, em 2024, ela mesma completou o raciocínio: estava de férias, era o mês do aniversário, tinham vindo os feriados.

“Nessa época a gente sempre exagera na comida, na bebida. Achei que fosse só isso”, diz a aposentada, de 74 anos. Poucas semanas depois, a pele começou a amarelar. Ela procurou um pronto-socorro. A tomografia encontrou um tumor no pâncreas, e ela foi operada em três dias.

A sequência é quase um roteiro: meses de sintomas que ninguém associa ao pâncreas, um sinal inequívoco que só chega tarde, e então a pressa.

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) projeta mais de 13 mil novos casos de câncer de pâncreas por ano no Brasil entre 2026 e 2028 —pouco mais de 1% de todos os diagnósticos oncológicos do país, mas 5% das mortes por câncer.

Nos Estados Unidos, onde as séries de sobrevida são mais consolidadas, o levantamento SEER, do National Cancer Institute, aponta que 12,8% dos pacientes chegam vivos ao quinto ano após o diagnóstico. Quando o tumor é encontrado antes de se espalhar, o índice sobe para 44%. Quando já há metástase, cai para 3%.

A distância entre 44% e 3% é o argumento inteiro. E é justamente ela que a medicina não consegue encurtar no pâncreas.

Um órgão que se esconde

O pâncreas ocupa uma posição privilegiada para passar despercebido. Fica entre a coluna e o estômago, cercado pelos principais vasos do abdome.

“Essa vizinhança, que deveria funcionar como proteção, atua contra o paciente: o tumor alcança as veias e as artérias em pouco tempo e se dissemina antes de dar qualquer sinal”, explica Marcos Belotto, cirurgião do Centro Oncológico do Hospital Nove de Julho.

A consequência aparece na estatística: menos de 30% dos pacientes chegam ao diagnóstico em condições de serem operados —e a cirurgia segue sendo o único tratamento com potencial de cura. Para os demais, o objetivo muda de natureza. Deixa de ser retirar o tumor e passa a ser controlá-lo, com quimioterapia e, mais recentemente, com terapias dirigidas às alterações genéticas que o impulsionam.

A localização do tumor determina o tipo de aviso que o corpo dá.

Quando cresce na cabeça do pâncreas, ele comprime a via biliar e provoca icterícia.

Quando aparece no corpo ou na cauda, produz dor nas costas e dificuldade para comer, porque invade o estômago.

“Uma parte considerável dos diagnósticos nasce de uma investigação que começou em outro lugar”, diz Belotto.

Antes da icterícia, quase sempre há meses de sinais que não apontam para lugar nenhum. Cerca de 80% dos pacientes têm dor ou desconforto abdominal em algum momento; 85% perdem peso; entre 50% e 60% relatam falta de apetite e cansaço.

“O problema não está na intensidade desses sintomas, e sim na inespecificidade deles”, afirma Stephen Stefani, oncologista do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation.

“Dor abdominal, cansaço e perda de apetite cabem em dezenas de diagnósticos mais prováveis, e é para esses que médico e paciente olham primeiro. Ninguém que acorda cansado desconfia que tem câncer de pâncreas.”

Há ainda uma distorção de memória que embaralha a reconstrução do caso depois.

“O primeiro sintoma que o paciente identifica quase nunca é o primeiro que ele teve”, observa Stefani. “Se a pergunta for genérica, a resposta é que não havia nada. Se você ancorar em uma data, o Natal ou o aniversário, família e paciente começam a reconstituir sinais de meses antes.”

A icterícia costuma ser o sinal que finalmente leva o paciente ao consultório —e ela não vem sozinha. Stefani descreve o mecanismo: a bile é produzida no fígado e percorre um conduto, o colédoco, que atravessa o pâncreas antes de desembocar no intestino.

Quando o tumor destrói esse caminho, a bile deixa de passar, retorna e transborda para a circulação. Daí decorre o conjunto de sinais.

A pele e o branco dos olhos ficam amarelados.

A bile depositada na pele provoca coceira intensa.

A urina escurece até a cor de refrigerante de cola, quadro que os médicos chamam de colúria.

E as fezes, que deveriam ser tingidas pela bile, ficam esbranquiçadas —a comparação que o oncologista usa é com massa de vidraceiro. Em cerca de um terço dos casos, elas também boiam, por excesso de gordura não digerida.

“Urina escura acompanhada de fezes esbranquiçadas indica obstrução da via biliar”, resume Stefani. “Não é sinônimo de câncer de pâncreas, mas é motivo para investigar sem demora.”

Elizabeth atravessou essa sequência em poucos dias. Achou que fosse hepatite, embora já estivesse vacinada.

A pergunta se impõe: se encontrar o tumor cedo multiplica por catorze a chance de sobreviver cinco anos, por que não há um exame de rotina para o pâncreas, como a mamografia para a mama ou a colonoscopia para o intestino?

Stefani responde a partir dos critérios que definem um bom teste de rastreamento. “Ele precisa ser simples de aplicar em larga escala, não pode acusar alterações irrelevantes e, acima de tudo, precisa mudar o destino de quem ele encontra”, diz.

“Nenhum exame de pâncreas chegou perto disso. Não há, em nenhum país e em nenhuma sociedade médica, recomendação de rastrear a doença.”

A ressonância magnética, lembrada com frequência como saída, detecta o tumor —em tese. Aplicada a quem não tem sintoma, vira loteria: para cada achado real entrariam na conta milhares de casos que passariam despercebidos e uma enxurrada de alterações sem significado clínico, cada uma delas capaz de levar a uma biópsia de pâncreas desnecessária.

“Examinar em excesso produz doença onde não há”, diz Stefani. “E existe um limite material. Não há ressonância para a população inteira, e ocupar as máquinas com quem não precisa significa tirá-las de quem precisa.”

Sem exame, o que sobra é reduzir risco: não fumar, evitar bebida alcoólica, manter atividade física e um padrão alimentar saudável. Cada item corta uma fração da probabilidade —nenhum deles a elimina.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Saúde

Deixe seu comentário

Verificação de Email - você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!

0 Comentários
mais recentes
mais antigos Mais votado
Orquestra Jovem do RS tem apresentação especial no Palácio da Justiça, em Porto Alegre, nesta quarta-feira
Por que Xuxa abandonou Pelé depois de seis anos
Pode te interessar
0
Adoraria saber sua opinião, comente.x