Sexta-feira, 25 de setembro de 2026
Por Edson Bündchen | 24 de setembro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Há algumas semanas, Genís Roca publicou no jornal espanhol La Vanguardia uma interessante reflexão sobre uma das obsessões do nosso tempo: a velocidade. Pedimos comida em minutos, compramos com um clique, recebemos mensagens instantaneamente e, agora, perguntamos à inteligência artificial e obtemos respostas em segundos. A impaciência deixou de ser apenas um comportamento humano para se transformar em infraestrutura econômica e tecnológica.
Roca resume o problema numa frase particularmente feliz: “A IA reduz o tempo para obter a resposta, mas não o tempo necessário para adquirir conhecimento.”
Os resultados do PISA 2025 ajudam a compreender essa advertência. O desempenho dos estudantes continua preocupante e o Brasil permanece muito abaixo das médias internacionais. Ao mesmo tempo, cresce rapidamente o uso da inteligência artificial para pesquisar, resumir textos e elaborar trabalhos escolares.
Aprender sempre significou percorrer um caminho. Ler, prestar atenção, errar, voltar ao texto, formular hipóteses, memorizar, relacionar conceitos, discutir e escrever. A resposta era importante, mas o percurso até ela também fazia parte da aprendizagem. A IA pode agora entregar o resultado sem exigir todas essas etapas. O ganho de eficiência é extraordinário, porém o risco é confundirmos eficiência cognitiva com terceirização cognitiva.
O mesmo fenômeno começa a aparecer no mundo do trabalho. À medida que máquinas assumem parcelas crescentes das tarefas técnicas e cognitivas, tornam-se relativamente mais valiosas competências que dependem da experiência humana, tais como julgamento, empatia, confiança, cooperação, comunicação, negociação, criatividade, liderança e capacidade de compreender contextos. São as competências sociais em ascensão.
Durante boa parte da era industrial, o diferencial profissional esteve associado ao domínio técnico e à capacidade de executar tarefas com precisão. A inteligência artificial desloca progressivamente essa fronteira. Saber continua indispensável, mas perde força quando desacompanhado da capacidade de interpretar, relacionar, julgar e conviver.
Pode-se aprender a utilizar uma ferramenta de IA em poucas horas. Muito mais difícil é formar alguém capaz de perceber que a resposta da máquina está errada, incompleta ou intelectualmente pobre. Mais difícil ainda é desenvolver a maturidade para ouvir um argumento contrário, compreender as emoções de uma equipe, administrar conflitos ou decidir quando os dados não oferecem uma resposta inequívoca.
Essas competências não podem ser baixadas, instaladas ou atualizadas. São construídas pela experiência, pelo convívio, pela leitura, pelos erros e pela reflexão. Exigem tempo.
A grande questão educacional deixa então de ser se devemos ou não utilizar inteligência artificial. Ela estará nas escolas, universidades e empresas. Importa saber o que faremos com o tempo que ela nos devolve.
Se cada minuto economizado servir apenas para produzir mais, teremos estudantes fazendo mais trabalhos, executivos produzindo mais relatórios e profissionais respondendo mais mensagens, sem que necessariamente saibam mais ou decidam melhor. A produtividade poderá crescer enquanto o conhecimento empobrece.
Existe outra possibilidade. Podemos utilizar o tempo recuperado para ler melhor, confrontar argumentos, experimentar, conversar, criar, observar pessoas e fazer perguntas melhores. Nesse cenário, a inteligência artificial não substituiria o esforço de aprender; permitiria direcioná-lo para aquilo que exige mais de nós.
Vivemos numa sociedade que passou a considerar a espera uma espécie de defeito. Entretanto, algumas das realizações humanas mais importantes continuam obedecendo a outro relógio. Construir confiança exige tempo. Fazer ciência exige tempo. Educar exige tempo. Compreender um livro exige tempo. Desenvolver pensamento crítico exige tempo. Aprender a ouvir, cooperar, liderar e compreender o outro exige tempo. Adquirir conhecimento continua a ser uma equação que não pode acelerar sua principal variável: O tempo!
(Instagram: @edsonbundchen)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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