Quinta-feira, 01 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 1 de outubro de 2026
Para os jovens, entrar na faculdade significa abrir as portas para um mundo inteiramente novo, que traz desafios como a pressão para ter boas notas e a dificuldade de adaptação. No caso daqueles que convivem com o transtorno do espectro autista (TEA), os desafios podem ser ainda mais complexos.
De acordo com um novo estudo encabeçado pela psicóloga Marina Zotesso, professora na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autora do livro “Me (re)conhecendo no autismo – Um guia para adolescentes” (Atena Editora), embora essa população chegue ao ensino superior, não recebe o apoio necessário para que permaneça.
Segundo ela, esse processo pode resultar em problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão de forma mais intensa. Leia abaixo alguns trechos que a psicóloga concedeu ao jornal O Globo.
– Quais as barreiras enfrentadas por pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no ensino superior? “As universidades brasileiras dizem que estão de portas abertas, mas não têm a manutenção para fazer com que o aluno permaneça. Essa tentativa ainda é muito incipiente. Muitas pessoas com TEA acabam desenvolvendo ao longo da vida universitária questões emocionais como ansiedade, depressão, burnout e não conseguem concluir a graduação. Quem convive com o TEA tem dificuldade com habilidades sociais, como iniciar conversas e fazer amizades. Também sofre de desregulação emocional em alguns momentos, principalmente por conta da sensibilidade sensorial. Outra questão é que eles não conseguem se acostumar com a flexibilidade que ocorre no mundo acadêmico. Do ponto de vista pedagógico, seria positivo haver certa previsibilidade, para o aluno autista conseguir saber o que esperar daquela aula, da disciplina e das futuras provas. Coisas que são faladas uma vez só em sala de aula e de maneira muito rápida. Essas características, inerentes ao autismo, quando não são consideradas pelas instituições ao receberem alunos com TEA, tendem a se tornar um empecilho para a educação dessas pessoas.”
– Falta uma conscientização por parte do mundo acadêmico? “Na minha pesquisa de pós-doutorado, os alunos relataram que professores universitários não entendem nem mesmo o que é autismo. Não fazem material pedagógico ou provas específicas. Não aceitam que usem abafador de som na aula. E isso tudo por conta de políticas institucionais muito frágeis, que tratam o TEA de forma genérica sem considerar as particularidades. Não basta a inclusão no formato padrão, é preciso considerar as singularidades de cada aluno.”
– Como ocorre a desregulação emocional de uma pessoa com TEA na universidade? “A desregulação emocional ainda é tratada como uma frescura, mas é algo sério. É um processo neurocomportamental que se refere a uma dificuldade persistente de se recuperar de estados emocionais intensos, de raiva, ansiedade ou até mesmo alegria. Ela é muito comum em todos os níveis de autismo e pode acontecer a qualquer momento. Vamos imaginar um estudante com TEA em sua primeira aula. Os outros alunos começam a conversar, falando alto ao redor dele, mas ninguém está falando com ele. Esse pode ser um cenário favorável para que comece a pensar: ‘Não tenho amigos, o que estou fazendo aqui?’. Além disso, para ele, no espectro, o barulho desse ambiente pode ser muito maior, a intensidade é duplicada ou até mesmo triplicada. E, quando ele não consegue estabelecer uma regulação naquela situação, pode começar a chorar, se bater, querer sair daquilo. Pode parecer uma crise, mas, na verdade, é uma forma de se acalmar e se regular novamente.”
– Como essas dificuldades de adaptação podem afetar a saúde mental desses alunos? “Saúde mental é o principal campo que as universidades precisam olhar com mais atenção, para que os estudantes, no geral, não adoeçam ainda mais. No contexto do TEA, nós temos que pensar que um estudante autista está muitas vezes vivendo esse processo de experienciar exigências acadêmicas, sociais e comportamentais longe da própria família, sozinho em outra cidade. E, em muitos casos, a dificuldade trazida pelo espectro em conseguir lidar bem com interações sociais contribui para a solidão da pessoa autista. O que, por sua vez, impacta na saúde mental. Todo esse cenário faz com que ele esteja mais fragilizado. Tudo é uma grande novidade, mas sem a ajuda ativa da instituição, essa pessoa não consegue receber o acolhimento necessário. Temos dados de um número alto de adolescentes e jovens adultos com TEA que têm cometido suicídio ao redor do mundo. Uma revisão publicada no ano passado mostrou que autistas podem apresentar um risco até nove vezes maior de ideação suicida. Isso se torna ainda mais preocupante se analisarmos que o cenário de um estudante universitário pode se tornar, aos poucos, de muito estresse, ansiedade e até mesmo sofrimento. No Brasil, a entrada de um jovem com TEA na universidade pode ser um sonho transformado em pesadelo.”
– Qual a importância dessa inclusão coletivamente? “Acima de tudo, vejo um potencial incrível nos meus pacientes, colegas e amigos com TEA. Eles são uma possibilidade de esperança no mundo acadêmico, pois possuem uma capacidade intelectual altíssima. Estamos falando de futuros pesquisadores e cientistas que podem trazer inovações e melhorar nosso mundo. Devemos buscar que as universidades se adaptem para recebê-los da melhor maneira possível.” As informações são do jornal O Globo.
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