Sábado, 03 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 3 de outubro de 2026
As famílias brasileiras chegam às eleições de 2026 com mais emprego, renda e dívidas do que em anos anteriores de votações presidenciais. Enquanto o mercado de trabalho mostrou recuperação após a crise da pandemia, a alta dos juros para conter a inflação apertou o orçamento domiciliar, o que ajuda a explicar o quadro de endividamento e inadimplência, dizem analistas.
Os contrastes têm sido explorados nas campanhas presidenciais de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O atual presidente buscou destacar os recordes de emprego e renda, ao passo que o senador tentou chamar a atenção para a pressão do endividamento e do custo de vida.
Os dois candidatos aparecem como favoritos nas pesquisas de intenção de voto antes do primeiro turno, que ocorre neste domingo (4).
Fabio Bentes, economista-chefe da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), diz que, em qualquer lugar do mundo, se a população permanecer empregada e tiver ganhos em consumo e qualidade de vida, o cenário tende a contribuir para a reeleição de um governante.
A questão, segundo ele, é que o Brasil chega a este domingo com sinais dúbios na economia, o que traz incerteza para as projeções eleitorais. A avaliação é uma referência às diferenças nos contextos do mercado de trabalho e do endividamento.
“Faz sentido que a disputa esteja tão acirrada como está para o governo federal e na maioria dos estados”, afirma.
Dados da CNC apontam que, em agosto, 82% das famílias tinham dívidas a vencer, maior patamar da série histórica iniciada em 2010. O indicador inclui compromissos financeiros com cartão de crédito, cheque especial, carnês, empréstimos e outros.
Considerando apenas os meses de agosto, o percentual era de 59,1% em 2010, de 63,6% em 2014, de 60,7% em 2018 e de 79% em 2022. Esses são os anos das eleições presidenciais anteriores no país.
Quando a pesquisa considera somente as famílias com contas em atraso (inadimplentes), a proporção foi de 29,9% no último mês de agosto. O pico da série ocorreu em setembro e outubro do ano passado (30,5%). A fatia era de 29,6% em agosto de 2022.
Outro indicador é o das famílias que sinalizam não ter condições de pagar as contas em atraso.
Em agosto de 2026, 12,5% estavam nessa condição, nível superior ao de quatro anos atrás (10,8%). O pico da série ocorreu em outubro de 2025 (13,2%).
“Esse cenário evidencia o impacto que o aperto monetário (juros altos) teve sobre as famílias”, afirma Bentes.
“As famílias não estão se endividando para consumir. Estão se endividando por outro motivo: o histórico de dívidas passadas que dificulta muito o reequilíbrio orçamentário.”
A taxa básica de juros (Selic) está em 13,75% ao ano. O patamar elevado reflete a tentativa do BC (Banco Central) de conter a inflação após a economia ter sido estimulada, em parte, por medidas do governo.
Mesmo com o aperto dos juros, o mercado de trabalho segue mostrando sinais de força.
A taxa de desemprego do Brasil ficou em 5,3% nos três meses até agosto. É o menor patamar para esse trimestre na série histórica do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), iniciada em 2012.
O número de pessoas de 14 anos ou mais ocupadas com algum tipo de trabalho (formal ou informal) foi de 103,5 milhões até agosto. É o maior já registrado pelo IBGE.
Na média, a população ocupada teve renda de R$ 3.777 por mês. O valor é recorde para o trimestre finalizado em agosto.
Para Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados e colunista da Folha, o cenário econômico, em linhas gerais, ainda é favorável para o governo Lula na busca pela reeleição.
Nesse sentido, Vale cita o impacto de variáveis consideradas relevantes como a queda do desemprego e os sinais recentes de trégua da inflação.
“O que tem de negativo, e que afeta potencialmente a popularidade do governo, é a questão da inadimplência. Tem uma conjunção de juros elevados e população endividada, além do efeito das bets, que também afeta a inadimplência.”
A liberação de crédito continua crescendo no país, mas ocorre em um ambiente de maior pressão sobre os orçamentos e se apoia em linhas mais caras, segundo artigo publicado na quarta (30) no Blog do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).
“A proporção de famílias endividadas, o comprometimento da renda e a inadimplência bancária estão em níveis recordes ou muito próximos deles, e a pressão é especialmente intensa entre as famílias de menor renda”, diz o texto assinado pelos pesquisadores Pedro Avelino, Flávio Ataliba Barreto e João Mário Santos de França.
A técnica em enfermagem Luana Dutra Gomes, 37, vive essas dificuldades. Ela afirma que já estava com o orçamento apertado por um empréstimo vinculado ao salário de um emprego formal quando foi vítima de um golpe digital no ano passado.
Segundo a trabalhadora, outras duas operações de crédito foram tomadas em seu nome de modo fraudulento à época. Luana não conseguiu lidar com os custos financeiros e diz tentar na Justiça uma resolução para o caso.
“Meu nome sujou. Não consegui pagar cartão, não consegui fazer mais nada, me atolei em dívida”, afirma. Ela vendeu pertences, recorre a bicos e recebe doações de alimentos para sobreviver. As informações são do jornal Folha de S.Paulo.
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