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Colunistas A energia do futuro precisa ser livre e universal

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(Foto: Renato Zimmermann)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

A Latinoware 2026 terminou em Foz do Iguaçu com a energia de quem sabe que o futuro não se constrói sozinho. Foram dias de encontros, palestras, oficinas, experiências e conversas que continuam depois que as luzes dos auditórios se apagam. O evento mantém uma qualidade rara: reúne pessoas de diferentes áreas e transforma curiosidade em troca concreta. Sempre saio de lá com a sensação de que algo novo começou.

Entre os rostos que fazem parte dessa história está Jon “maddog” Hall. Ele está para a Latinoware como a Latinoware está para ele: há uma identificação profunda entre o defensor do software livre e um encontro que valoriza conhecimento aberto, colaboração e autonomia. Sua presença ajuda a lembrar que tecnologia também é uma escolha sobre quem pode criar, participar e decidir.

Fui convidado a falar sobre a energia do futuro. Comecei com uma pergunta simples: você acha que energia é apenas um insumo, um recurso para fazer dispositivos elétricos e eletrônicos funcionarem? A resposta muda quando percebemos que energia sustenta a vida cotidiana, a economia e a capacidade de um país decidir seus próprios caminhos. Energia também é soberania. E é uma questão civilizatória.

Na palestra, recorri à escala de Kardashev, criada pelo astrofísico Nikolai Kardashev, que propõe medir o desenvolvimento de uma civilização pela quantidade de energia que consegue aproveitar. A escala imagina níveis planetário, estelar e galáctico. É uma ideia hipotética, mas provoca uma reflexão real: o modo como usamos energia revela o tipo de sociedade que estamos construindo. Não basta produzir mais. Precisamos escolher para quem, com que inteligência e com quanta liberdade essa energia estará disponível.

Essa discussão já está diante de nós. Milhões de sistemas solares, baterias, veículos elétricos e equipamentos conectados estão mudando a relação entre as pessoas e a rede. O modelo que predominou por décadas foi pensado para levar eletricidade em uma direção, de grandes usinas até consumidores que tinham pouca participação. Agora, casas e empresas podem gerar, armazenar e ajustar o próprio consumo. A rede precisa acompanhar essa mudança.

É nesse contexto que surge o DSO, sigla em inglês para operador do sistema de distribuição. Em termos simples, é a função de coordenar a rede local, observar o que acontece e integrar recursos como geração distribuída, baterias e cargas flexíveis. Essa coordenação será decisiva. Também será decisivo definir quem a exerce e a serviço de quais interesses.

Na palestra, alertei para o risco de a ANEEL desenhar essa função de modo que as próprias distribuidoras acabem concentrando a operação da nova rede. Os sinais que aparecem no debate regulatório e em experiências de sandbox merecem atenção pública. Um sandbox é um ambiente controlado para testar soluções e regras antes de adotá-las em escala. Ele pode ajudar a inovação, mas seus critérios e resultados precisam ser transparentes e considerar a participação dos consumidores. Se a nova arquitetura mantiver o cidadão apenas como usuário passivo, teremos modernizado os equipamentos sem democratizar as decisões.
Foi por isso que a Latinoware me pareceu o lugar certo para fazer esse alerta. A cultura do software livre defende que as pessoas possam compreender, adaptar e compartilhar ferramentas. A energia do futuro conversa com esse espírito: deve abrir espaço para participação, inovação local e escolha. O cidadão precisa poder decidir como gerar e consumir sua energia, em que momento e em que quantidade, dentro de regras que protejam o interesse coletivo.

A transformação já começou. Cabe à sociedade acompanhar a regulação e exigir uma rede que acolha novas ideias e novos negócios. Energia livre e universal não é apenas uma promessa tecnológica. É a possibilidade de mais autonomia, oportunidades e soberania para o Brasil.

Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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