Quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Por Edson Bündchen | 22 de outubro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
O mundo é governado por grandes ideias, gostemos ou não. Uma delas organiza a política das democracias entre esquerda e direita. Embora insuficientes para acomodar a complexidade humana, essas referências ainda ajudam a compreender nossas escolhas, sobretudo pelo peso que atribuímos à igualdade e pelas desigualdades que estamos dispostos a aceitar.
Seria equivocado, contudo, entregar a liberdade à direita e a igualdade à esquerda, como propriedades exclusivas. A liberdade também pertence à tradição democrática da esquerda, assim como a preocupação social não está ausente de toda a direita. A questão aqui colocada é refletir sobre o risco dessas diferenças interditarem o debate, em vez de fortalecê-lo.
Existem momentos em que as forças históricas favorecem uma direção, permitindo governos reformistas com amplo apoio. Em outros, o equilíbrio produz negociação e avanços compartilhados. Mas ainda existe uma terceira possibilidade, na qual forças suficientemente poderosas interditam o diálogo e tornam-se incapazes de construir algo em comum. O equilíbrio, então, vira paralisia.
O Brasil parece aprisionado nessa engrenagem. A energia que deveria enfrentar nossos problemas é consumida na tarefa de desqualificar quem pensa diferente. Uma proposta deixa de ser examinada pelo que pode entregar e passa a ser julgada por sua certidão de nascimento partidária. Se veio do outro lado, precisa fracassar. Ainda que o preço seja pago por todos.
Às vésperas do segundo turno presidencial, essa lógica ganha intensidade. A disputa pede uma escolha entre dois candidatos, mas não deveria exigir a amputação do pensamento. Votar em alguém não nos obriga a subscrever todas as suas ideias, ignorar seus erros ou transformar seus adversários em inimigos pessoais.
Podemos defender a responsabilidade fiscal e o investimento social; a iniciativa privada e serviços públicos de qualidade; a segurança e os direitos humanos. Aliás, uma coisa frequentemente depende da outra. Não há política social duradoura numa economia arruinada, nem prosperidade sustentável numa sociedade que desperdiça milhões de talentos pela pobreza.
Reconhecer essas relações não nos lança numa “geleia geral”, na qual qualquer opinião vale tanto quanto outra. Isso é pluralismo, não ausência de critérios. Podemos admitir diferentes caminhos para o desenvolvimento sem relativizar fatos, tolerar a corrupção ou negociar as regras democráticas.
A abertura ao diálogo exige convicções suficientemente firmes para suportar o contraditório. Quem precisa silenciar o outro para preservar suas certezas talvez esteja protegendo uma fragilidade.
Precisamos, de fato, de uma síntese entre os opostos de hoje, mesmo que imperfeita. Numa aproximação livre à dialética hegeliana, superar uma contradição significa transformar seus termos, preservando o que neles existe de relevante. Não se está dizendo que é preciso fazer uma média aritmética entre programas, muito menos entre democracia e autoritarismo. Trata-se de construir respostas melhores do que aquelas que cada campo consegue formular isoladamente.
Essa síntese tampouco surge espontaneamente do confronto. Depende de lideranças, instituições e cidadãos dispostos a reconhecer limites próprios e contribuições alheias. A democracia não promete eliminar o conflito, mas oferece meios para que ele produza decisões em vez de destruição.
Por isso, a escolha eleitoral também precisa considerar quem reúne condições de governar para além de sua torcida, aceitar a fiscalização e reconhecer a legitimidade de uma oposição democrática. Ganhar a eleição confere um mandato, não a propriedade do país.
Liberdade e igualdade precisam encontrar uma combinação que permita ao Brasil avançar. Enquanto forem usadas como armas para inviabilizar uma à outra, continuaremos girando no mesmo redemoinho, com muito movimento, enorme desgaste e quase nenhum caminho percorrido.
(Instagram: @edsonbundchen)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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