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Colunistas Singularidade econômica: quando a tecnologia transforma as regras do jogo

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A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de pesquisa ou entretenimento. (Foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Imagine uma economia na qual empresas consigam produzir cada vez mais, com menos recursos e participação humana em determinadas atividades. Sistemas de inteligência artificial poderão realizar tarefas intelectuais, robôs executarão operações físicas e processos hoje demorados poderão ser concluídos em minutos. Novos produtos, serviços e oportunidades surgirão, enquanto profissões conhecidas poderão desaparecer ou passar por mudanças profundas. O que acontecerá com a sociedade se a capacidade de produzir riqueza crescer em um ritmo muito superior à nossa capacidade de reorganizar o trabalho e distribuir oportunidades?

Essa questão está no centro de um debate ainda em construção sobre a chamada singularidade econômica. A expressão não possui uma definição única e consensual, nem representa um acontecimento inevitável com data marcada. Ela pode ser utilizada para pensar um cenário hipotético em que a aceleração tecnológica transforme tão profundamente a produtividade, o emprego, os mercados e a geração de riqueza que os modelos econômicos atuais se tornem insuficientes para explicar a nova realidade.

Para compreender a dimensão dessa possibilidade, vale observar o que já está acontecendo. A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de pesquisa ou entretenimento. Ela auxilia na elaboração de documentos, na programação de sistemas, na análise de dados, no atendimento ao público e em processos de decisão empresarial. Em diferentes setores, tecnologias de automação permitem fazer mais em menos tempo. À medida que essas ferramentas se tornam acessíveis e passam a atuar em conjunto, seus efeitos podem se multiplicar.

Historicamente, o avanço tecnológico eliminou atividades, criou profissões e elevou a produtividade. A mecanização da agricultura reduziu a necessidade de trabalhadores no campo, enquanto a industrialização transformou a organização do trabalho e impulsionou a urbanização. A informática modificou escritórios, bancos, fábricas e serviços. Há, contudo, uma diferença importante no momento atual: a inteligência artificial alcança também tarefas cognitivas, antes consideradas exclusivamente humanas, e pode evoluir em conjunto com outras tecnologias. Isso torna mais difícil antecipar quais atividades serão transformadas e em que velocidade.

Mas a história do desenvolvimento também revela uma contradição. A mesma capacidade humana de transformar a natureza e ampliar a produção que proporcionou avanços extraordinários contribuiu para a degradação de ecossistemas e para o agravamento das mudanças climáticas. O aquecimento global e a crescente exposição de populações a eventos extremos nos lembram que o crescimento econômico não acontece separado das condições ambientais que sustentam a vida. Cada nova etapa de desenvolvimento nos oferece oportunidades, mas também exige que repensemos os custos e as consequências de nossas escolhas.

O resultado da transformação tecnológica não precisa ser negativo. Novas ferramentas podem melhorar diagnósticos médicos, acelerar pesquisas, reduzir desperdícios, ampliar a oferta de serviços e criar mercados inteiramente novos. A própria inteligência artificial pode ajudar a otimizar redes elétricas, antecipar eventos climáticos e melhorar o uso da água e dos recursos naturais. Entretanto, sua expansão também exige energia, equipamentos, água e minerais. O desafio não é apenas desenvolver tecnologias mais poderosas, mas orientar sua aplicação para que os ganhos de produtividade sejam compatíveis com a preservação das condições que sustentam a sociedade.

Esse é um dos pontos centrais da discussão econômica. Se uma parcela crescente da produção depender de sistemas automatizados, como será distribuído o valor gerado? Quem controla as tecnologias, os dados, a infraestrutura e o capital necessário para utilizá-las poderá ocupar uma posição privilegiada. Trabalhadores cujas atividades forem substituídas ou desvalorizadas poderão enfrentar períodos de insegurança, especialmente se a criação de novas ocupações não acompanhar a velocidade das mudanças. O desafio não será apenas preparar pessoas para novas profissões, mas garantir que tenham condições reais de acessar essas oportunidades.

Há ainda uma questão que ultrapassa a economia: até que ponto conseguiremos manter o controle sobre sistemas aos quais delegamos cada vez mais decisões? A autonomia crescente da inteligência artificial pode trazer ganhos de eficiência, mas também ampliar as consequências de falhas, objetivos mal definidos e mecanismos de supervisão insuficientes. Em cenários futuros, sistemas muito avançados poderiam agir de maneiras incompatíveis com os interesses humanos. Não sabemos se ou em que circunstâncias isso poderá ocorrer, mas a possibilidade reforça a necessidade de desenvolver tecnologias com segurança, limites claros e responsabilidade humana.

O historiador Yuval Noah Harari tem chamado a atenção para as relações entre inteligência artificial, informação e poder. Essa perspectiva ajuda a ampliar o debate: não basta perguntar o que as máquinas serão capazes de fazer. É preciso perguntar quem definirá como serão utilizadas, quem controlará seus recursos e quais interesses orientarão suas aplicações. Essas decisões influenciarão não apenas a competitividade das empresas, mas também a autonomia das pessoas e o funcionamento das instituições.

Diante desse cenário, educação e requalificação profissional serão fundamentais, mas talvez não sejam suficientes. Se as mudanças atingirem simultaneamente diferentes setores, será necessário repensar políticas públicas, proteção social, modelos de negócio e formas de participação nos ganhos de produtividade. Também será necessário discutir como evitar que a concentração de recursos tecnológicos se transforme em concentração excessiva de poder econômico. Não existe uma solução única, e seria prematuro defender um modelo econômico específico como resposta definitiva. O essencial é reconhecer que as instituições precisam acompanhar as transformações, em vez de agir apenas quando seus efeitos negativos já estiverem instalados.

Essa reflexão também precisa incorporar uma dimensão ética. O progresso não deveria ser medido apenas pela capacidade de produzir mais, mas pela maneira como essa capacidade contribui para a vida humana, respeita os sistemas naturais e considera as gerações futuras. Uma economia tecnologicamente avançada pode gerar riqueza extraordinária, mas seu valor para a sociedade dependerá também das oportunidades que oferece, da segurança material das pessoas e da possibilidade de cada indivíduo participar da vida econômica.

Se a tecnologia nos permitir produzir muito mais com menos esforço humano, teremos diante de nós uma oportunidade extraordinária. Mas ela não se converterá automaticamente em bem-estar coletivo. Isso dependerá das escolhas que fizermos, das instituições que construirmos e da maneira como distribuirmos os benefícios dessa nova capacidade produtiva.

Se as máquinas puderem produzir uma parcela crescente da riqueza, estaremos preparados para reorganizar a economia de modo que o avanço tecnológico represente também progresso para as pessoas e para a civilização que desejamos construir?

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética. (Contato: rena.zimm@gmail.com)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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