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Acontece O luto por um pet também é luto: a dor que ainda busca reconhecimento

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Camila Vasquez, psicóloga, 25 anos com Cacau, uma pincher de 6 anos.

Foto: Divulgação.
Camila Vasquez, psicóloga, 25 anos com Cacau, uma pincher de 6 anos. (Foto: Divulgação)

O luto é um dos temas mais complexos dentro da psicologia, tanto pelas diferentes camadas que envolvem essa experiência quanto pela dificuldade de compreender o impacto que uma perda produz em cada pessoa. Embora a morte faça parte da condição humana, cada indivíduo vivencia a despedida de forma única, influenciado por sua história, seus vínculos e os significados construídos ao longo da vida.

Um dos grandes desafios está justamente em entender o que faz parte de um processo natural de luto e em que momento o sofrimento pode indicar a necessidade de um acompanhamento mais atento. Afinal, como medir a intensidade da dor de alguém sem conhecer a dimensão da relação que essa pessoa mantinha com quem perdeu? Na prática clínica, especialmente em contextos de cuidados paliativos, observa-se que o luto não é determinado pelo grau de parentesco, mas pela profundidade do vínculo afetivo. Em outras palavras, o sofrimento costuma ser proporcional ao amor investido naquela relação.

Por muitos anos, a compreensão popular sobre o luto esteve associada às cinco fases descritas pela psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross em 1969: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Embora esse modelo tenha contribuído para ampliar a discussão sobre o tema, atualmente a literatura científica entende o processo de forma mais flexível. As emoções não seguem uma ordem rígida e previsível. Uma pessoa pode vivenciar a aceitação em determinado momento e, dias depois, sentir novamente raiva, tristeza profunda ou incredulidade. Não existe uma forma correta de sofrer nem um roteiro universal para enfrentar a perda.

Ao abordar essa questão, surge um tema que ainda encontra pouca compreensão social: o chamado luto não reconhecido. Trata-se de um sofrimento legítimo que, por diferentes razões, não recebe validação da sociedade. Entre os exemplos mais comuns está a morte de um animal de estimação.

Muitas pessoas que perdem um pet enfrentam não apenas a dor da despedida, mas também a dificuldade de encontrar acolhimento. Comentários como “você pode ter outro bichinho” ou “era só um cachorro” acabam minimizando uma experiência emocional intensa. Em poucas situações alguém diria algo semelhante para quem perdeu um familiar. No entanto, quando se trata de um animal, frequentemente surge a ideia equivocada de substituição, como se o vínculo pudesse ser facilmente reproduzido.

O luto não reconhecido também pode ocorrer em outras circunstâncias, como a perda de um emprego, um aborto, a morte de um ex-cônjuge, de um artista admirado ou de qualquer relação que não seja socialmente validada. Em todos esses casos, o sofrimento existe, mas nem sempre encontra espaço para ser expressado.

Essa discussão torna-se ainda mais relevante em um contexto em que a relação entre seres humanos e animais se fortalece a cada ano. Os pets ocupam espaços afetivos cada vez mais significativos nas famílias contemporâneas. Além da companhia diária, eles oferecem suporte emocional, sensação de pertencimento, propósito e conforto em momentos difíceis.

Existem evidências claras da importância desse vínculo. A equoterapia, por exemplo, utiliza cavalos como ferramenta terapêutica para auxiliar no desenvolvimento biopsicossocial de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Da mesma forma, cães treinados para Intervenção Assistida com Animais atuam em hospitais, clínicas, asilos e instituições de acolhimento, contribuindo para o bem-estar físico e emocional de pacientes.

Apesar disso, ainda há uma resistência cultural em reconhecer plenamente a importância dessas relações. Poucas empresas possuem políticas estruturadas de acolhimento para funcionários que perderam seus animais de estimação. A legislação trabalhista brasileira também não prevê, de forma obrigatória, licença para esse tipo de situação. Como consequência, muitas pessoas retornam às suas atividades cotidianas sem tempo para processar emocionalmente a perda.

Essa falta de reconhecimento pode gerar isolamento. Quando alguém sente que precisa justificar constantemente a própria tristeza, tende a se fechar e a evitar compartilhar sentimentos. O risco é transformar uma experiência que poderia ser acolhida em um sofrimento silencioso.

É importante lembrar que a intensidade da dor não determina, por si só, a existência de um transtorno psicológico. No entanto, em alguns casos, dificuldades persistentes podem estar relacionadas ao chamado transtorno do luto prolongado. Entre os sinais estão a saudade intensa, a preocupação constante com a pessoa ou animal que morreu, a dificuldade em retomar a rotina, pensamentos recorrentes sobre a perda e comportamentos de evitação relacionados às lembranças. Para adultos, esses sintomas precisam persistir por pelo menos 12 meses para que essa hipótese diagnóstica seja considerada. Ainda assim, a avaliação deve sempre ser feita por profissionais qualificados.

Diante disso, surge uma pergunta essencial: como acolher alguém que está vivendo o luto? A resposta não está em oferecer soluções prontas ou frases de conforto automático. Muitas vezes, o mais importante é simplesmente estar presente. Ouvir sem julgamentos, permitir que a pessoa fale sobre sua dor e respeitar seu tempo são atitudes que podem fazer grande diferença.

Rituais de despedida também possuem um papel importante. Cerimônias, homenagens, cartas, fotografias e símbolos construídos para marcar a memória daquele vínculo podem auxiliar na elaboração emocional e na ressignificação da ausência.

Por fim, um dos aspectos mais importantes da experiência do luto é aprender a se perceber e se permitir sentir. Há dias em que a necessidade será chorar. Em outros, conversar, passear, revisitar lembranças ou simplesmente permanecer em silêncio. Não existe uma fórmula para superar uma perda. Existe apenas o caminho possível para cada pessoa, construído com respeito às próprias emoções e à importância do amor vivido. Matéria realizada com Camila Vasquez, psicóloga, 25 anos. (Por Gisele Flores )

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