Sábado, 06 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 9 de julho de 2016
“Querida Susan, tenho novidades interessantes para você”, começava Steven, o pai de Susan Faludi, em um e-mail enviado em 7 de abril de 2004 e intitulado “Mudanças”. “Decidi que já basta de incorporar o macho agressivo que nunca fui por dentro”, continuava, e para ilustrar, anexou uma foto sob a legenda “pareço cansada depois da cirurgia”. Estava de camisa sem manga e saia vermelha, em um hospital tailandês. Aos 76, o homem com quem Susan, 57, mal falara nos últimos 25 anos, dizia que seu nome passara naquele momento a ser Stéfanie.
Vencedora de um Pulitzer, com obras feministas no currículo, a jornalista nova-iorquina confessa hoje que, em um primeiro momento, titubeou. “Posso administrar uma mudança no pronome, pensei, mas na paternidade?” Meses depois, Susan foi à Hungria, onde Stéfanie morava, com um gravador, 24 fitas e dez páginas “sem duplo espaçamento” com perguntas. O pai transexual queria que ela escrevesse sua história, contada agora, 12 anos depois, no livro “In the Darkroom” (“No Quarto Escuro”, na tradução livre).
Identidade múltipla.
Susan cresceu vendo o pai como protótipo do macho americano. Steven lhe dava medo. Adolescente, percebia sua chegada em um cômodo mexer com a atmosfera, como “o termômetro que cai quando uma frente fria se avizinha”. A escritora narra o dia em que o pai, após se divorciar de sua mãe, violou uma ordem de restrição e, com um taco de beisebol, atacou o novo namorado dela. A sala, contou, parecia uma cena de “Carrie – A Estranha”, que estreara naquele outono de 1976.
No encontro na Hungria, Stéfanie a recepcionou com um suéter vermelho e brincos de pérola, o cabelo pintado de ruivo. “Seus seios 48C [uma das maiores medidas americanas de sutiã] cutucaram nos meus”, lembra.
Em alguns momentos a feminista se sentiu desconfortável com a situação, como quando Stéfanie lhe mostrou o vídeo da operação de mudança de sexo. A filha logo pensou no programa de culinária da lendária Julia Child (“corte o peixe pela lateral, guarde a pele para depois”). “Ao menos Julia estaria armada com um drinque forte”, pensava.
Para a jornalista, Stéfanie desafiou não só visões tradicionais sobre masculino e feminino, mas conceitos mais contemporâneos sobre gênero. Seria limitado defini-la como uma mulher por décadas presa no corpo de um homem, percebeu.
Para sobreviver ao Holocausto, o judeu Steven Friedman, filho da classe média alta de Budapeste, chegou a comer partes de um cavalo congelado no inverno. Depois da Segunda Guerra, mudou de assinatura (do judeu Friedman para Faludi, “um autêntico nome húngaro”) e de país. Morou na Dinamarca e no Brasil. Comprou uma câmera de um ex-nazista e documentou uma hidrelétrica na Bahia, onde aprendeu um ditado em português: “O urubu pousou na minha sorte”.
Reinventou-se mais uma vez como pai de duas crianças no subúrbio do Estado de Nova York (EUA). Fazia questão que a família comemorasse Natal e Páscoa e era fanático por Leni Riefenstahl, a cineasta predileta de Hitler. Essa teia de identidades teria dado um nó na cabeça de Susan. Qual delas seria a mais verdadeira? O patriarca violento, ou talvez o aspirante a cineasta? O jovem judeu que simulou ser fascista para salvar os pais da câmara de gás e que depois confessou à filha que “se você acredita ser quem finge ser, está a meio caminho da salvação?”.
Saudade de uma figura controversa, mas amada.
E agora a filha se via diante do seu novo pai, “este homem-judeu-transformado-em-mulher zombando de homens judeus por não serem masculinos o suficiente”. Stéfanie imitava a voz de Minnie Mouse para caçoar de conterrâneos que não enfrentavam as autoridades. “Se este livro tem uma ideia central”, defende a autora, “é a de que a identidade é fluida e múltipla”. Stéfanie morreu em 2015, aos 87 anos. “Sinto falta do meu pai e a chamo pelo que nome que ela mais amou: Stéfi. Sinto falta dela.” (Folhapress)
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