Domingo, 18 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 5 de julho de 2015
Em um debate no 10 congresso internacional da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), a pergunta que mais chamou a atenção foi feita por um juiz. Ela veio do magistrado federal Sergio Moro, responsável pelas ações da Operação Lava-Jato, ao falar da preocupação pelo fato de o caso afetar grandes empresas e causar riscos de demissões e falências. “O custo de soluções deles [crimes de corrupção] é realmente grande. Mas qual seria o custo da continuidade?”, indagou. E ele mesmo respondeu: “Contratos públicos cada vez mais custosos e obras públicas que nunca terminam”.
O magistrado disse que não poderia falar sobre pontos específicos do caso de corrupção na Petrobras, mas ressaltou que a investigação revelou problemas que vinham se acumulando há tanto tempo sem uma resposta adequada pelas instituições e, de repente, esses problemas começaram a aparecer de forma clara.
Moro aproveitou uma das raras aparições públicas para reclamar que não tem sido tratado com respeito por parte dos defensores dos réus, e que, muitas vezes, foi ofendido publicamente com expressões de baixo nível.
Mas, nas palavras do próprio juiz, a participação no congresso da Abraji tinha como objetivo mostrar que ele não é a besta-fera que alguns tentam dizer que ele é.
Mostrando bom humor ao responder às perguntas do jornalista Roberto D’Avila e do público que lotou o auditório, Moro disse que pensou em se formar em jornalismo e só passou a gostar da faculdade de direito a partir do terceiro ano do curso.
Ao responder sobre o que escreveria a respeito do juiz Sergio Moro na Lava-Jato, caso fosse jornalista, brincou: “O juiz Moro quer férias”. O magistrado também provocou risos ao dizer que, apesar de sempre ser visto com roupas escuras, possui peças coloridas, e que a preferência pelo preto e cinza era apenas momentânea.
O juiz negou-se a falar sobre temas pessoais e disse que com isso evita um culto à celebridade. Afirmou apenas que a Lava-Jato causa grande estresse em sua vida pessoal, mas que seu cotidiano é banal e parecido com o da maioria da população.
Moro defendeu a publicidade das informações investigadas na Lava-Jato como instrumento de democratização do poder e criticou a prerrogativa de foro privilegiado. Para ele, o foro a políticos com mandato fere o princípio da igualdade.
Para o magistrado, a ampla publicidade de julgamentos criminais é um dever constitucional ainda mais em casos envolvendo a administração pública.
“Defendemos que os processos devam ser públicos, principalmente quando envolve a administração
pública, até porque permite um escrutínio da imprensa”, afirmou. Em seguida, completou: “Quanto maiores
poderes, maiores responsabilidades. Os governantes têm mais poder e com isso mais responsabilidades”.
Crítica
Dois dos principais advogados que atuam na Lava-Jato criticaram a conduta de Moro no evento da Abraji. O criminalista David Teixeira de Azevedo, que defende o lobista Fernando Baiano, disse que o magistrado restringiu o direito de defesa ao não dar tempo suficiente para a convocação de uma testemunha que mora no exterior. Azevedo acrescentou que faltava coragem aos tribunais de recursos para revogar decisões do juiz.
O advogado Fábio Tofic, defensor de executivos da Engevix, qualificou de arbitrárias medidas tomadas por Moro. Para ele, as prisões decretadas pelo juiz têm o claro propósito de forçar delações dos acusados. (Folhapress)
Os comentários estão desativados.