Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 3 de janeiro de 2018
Após um dos anos de tensão mais elevada na memória recente da Península Coreana, em meio a ameaças de guerra, lançamentos de mísseis balísticos e testes nucleares nos níveis mais potentes da Coreia do Norte, um pequeno passo em direção à paz parece ter sido dado no início de 2018. Mas será um avanço sustentável para de fato reaproximar as duas Coreias ou apenas outra tentativa frustrada de reconectá-las?
Recapitulando os três primeiros dias deste ano: em um discurso de Ano Novo, o líder norte-coreano Kim Jong-un expressa a intenção de melhorar os laços com o vizinho do Sul. Ele indica que, talvez, uma equipe norte-coreana será enviada aos Jogos Olímpicos de inverno em fevereiro na cidade de Pyeongchang, na Coreia do Sul. Em rápida resposta, autoridades do Sul propõem uma reunião para conversar. Nesta quarta-feira, por sua vez, o regime do Norte anuncia que o líder Kim Jong-un saudou a resposta positiva dos sul-coreanos e os dois países começam contatos preliminares para reestabelecer um canal direto de comunicação, suspenso há dois anos.
Analistas avaliam que tudo indica que há boas chances para uma reunião acontecer, embora esta seja a parte fácil do processo. O presidente sul-coreano Moon Jae-in defende a aproximação das duas Coreias há anos, e prometeu em campanha adotar uma abordagem mais suave do que seus antecessores conservadores.
Moon era um assessor de alto escalão do presidente liberal anterior Roh Moo-hyun, que mantinha uma chamada “Política do Raio de Sol” (implementada em 1998 por Kim Dae-jung) voltada à Coreia do Norte, com grande parcela de apoio enviada ao vizinho e os dois lados buscando cooperar em programas de turismo e negócios. Embora Moon, que assumiu a presidência em maio passado, tenha sido pressionado para endurecer sua posição diante dos ensaios nucleares do Norte, ele claramente é mais favorável ao diálogo.
Do outro lado, o Norte mostrou pouco interesse em caminhar à paz desde que Kim Jong-un assumiu o poder em 2011. No entanto, não foi a primeira vez que sugeriu melhorar os laços com a Coreia do Norte em discursos de Ano Novo. Céticos apontariam que ele mistura propostas de paz com ameaças de guerra e conduziu testes com armas semanas após tais pronunciamentos.
“Há também suspeita de que Kim usará qualquer conversa como cobertura para continuar a aperfeiçoar seu arsenal nuclear que pode confiavelmente atingir o continente americano, e de que sua abertura significa principalmente interromper os laçoes entre Seul e Washington de modo que possa enfraquecer pressão e sanções internacionais”, aponta Foster Klug, chefe do escritório da AP em Seul que cobre as Coreias desde 2005.
Ânimos latentes
Sete décadas de ânimos latentes e derramamento de sangue estão no meio do diálogo das duas Coreias. Os dois países foram divididos em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial. O Sul ficou sob administração dos Estados Unidos, enquanto o Norte estava nas mãos da então União Soviética. Três anos depois, o Norte lançou uma invasão surpresa, dando início a uma guerra que contou ainda com a participação da ONU e da China no conflito, que se tornou uma das guerras mais sangrentas do século XX. Desde então, episódios violentos pontuais marcaram a relação das duas Coreias, sobretudo com ações do Norte que incluem assassinatos, sequestros e, em 2010, ataques que mataram 50 sul-coreanos.
Portanto, diante deste passado sangrento, qualquer encontro para conversas pode ser vista como uma vitória, especialmente após a miséria do ano passado. Ainda assim, os rivais já chegaram a esse ponto muitas vezes anteriormente, e as negociações não tomaram o melhor caminho quando chegam ao fim. Geralmente, os encontros se desfazem antes mesmo de alcançar algum progresso.
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