Quarta-feira, 14 de outubro de 2026

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Brasil O prédio que desabou em São Paulo era um ícone da arquitetura modernista

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O edifício, já ocupado, antes de desabar. (Foto: Javam Alves/Fotos Públicas)

A torre que pegou fogo e desabou na madrugada de terça-feira (1º), no Largo do Paissandu, em São Paulo, era um dos marcos arquitetônicos da cidade e tombada pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo).

Com 24 andares, além de dois pisos de sobrelojas comerciais, e 11 mil m² de área construída, o Edifício Wilton Paes de Almeida, na rua Antonio de Godoi, foi projetado na década de 1960 para abrigar a sede da empresa CVB (Cia. Comercial Vidros do Brasil).

O prédio era considerado a maior obra do arquiteto Roger Zmekhol (1928-1976). Filho de imigrantes sírios, Zmerkhol nasceu em Paris e veio para o Brasil ainda criança. Ele era professor da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da Universidade de São Paulo.

Sua característica marcante era a enorme fachada envidraçada, que lhe rendeu o apelido de “pele de vidro”. Um artigo de 1965 da extinta revista de arquitetura Acrópole ressaltava outras características do prédio, como o primeiro da cidade a ter sistema de ar-condicionado central e seu hall de mármore e aço inoxidável.

Para o arquiteto Francesco Perrota-Bosch, o desabamento do Wilton Paes de Almeida também é uma “tragédia arquitetônica”.

“Ele era um ponto fora da curva na arquitetura, era um prédio de vanguarda. Era um projeto com muita influência do minimalismo do Mies van der Rohe (arquiteto alemão) em sua fase americana. Mas a principal referência era o edifício Lever House, de Nova York, do escritório SOM (Skidmore, Owings e Merrill)”, disse ele. “A fachada de vidro dele marcou uma época, precisou ser importada porque não era feita no Brasil.”

Era justamente essa fachada de vidro que fazia a ocupação do edifício por pessoas sem moradia ser diferente das outras pela cidade, segundo o arquiteto Gustavo Cedroni, do escritório Metro, que fez um projeto de intervenção urbana no Largo do Paissandu, em 2014.

“Normalmente, os prédios ocupados têm janelas pequenas e são fechados, você não vê o que acontece. Ali, não. Justamente por ser envidraçado, era possível ver a ocupação lá dentro. Era um prédio icônico, numa esquina importante do centro da cidade”, disse ele.

A arquiteta Nadia Somekh, professora emérita da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie e integrante do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, afirmou que o desabamento do Wilton Paes de Almeida é uma “perda enorme” para o patrimônio histórico de São Paulo. “Fora a tragédia como um todo, o prédio era um marco da arquitetura modernista de São Paulo”, disse ela. “É preciso pensar em uma política habitacional mais consistente para a cidade e que preserve o nosso patrimônio histórico. É simbólico que este edifício venha abaixo justo no 1º de Maio, com essa desvalorização do trabalho no País.”

Igreja luterana

Ao lado do edifício funcionava uma centenária igreja luterana, a Martin Luther, que também era tombada. O pastor Frederico Ludwig, 61, há 20 anos à frente da igreja fundada por imigrantes alemães, disse que ela ficou 80% destruída. “Sobrou praticamente só o altar e a torre”, afirmou. Ludwig conta que a igreja havia sido reformada recentemente, em obra com custo total de R$ 1,3 milhão.

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