Terça-feira, 29 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 24 de agosto de 2018
Quando você está navegando na internet e o cursor do mouse some da tela, pode ser uma falha do computador – ou pode ser só uma empresa tentando confirmar se você é você mesmo. O modo como cada pessoa pressiona, passa dedos, digita ou tecla, seja no celular ou no computador, é algo tão único quanto as impressões digitais ou a retina. Assim, um crescente número de bancos e empresas começaram a rastrear os movimentos físicos dos usuários em seus sites e aplicativos, como uma arma no combate à fraude.
Alguns estabelecimentos usam a tecnologia apenas contra ataques de vírus e em casos de operações suspeitas. Outros vão muito mais longe, reunindo dados de dezenas de milhões de perfis, com os quais podem identificar clientes pelo modo como manuseiam, seguram e teclam seus equipamentos.
É uma coleta de dados invisível para os que são observados. Usando sensores instalados em celulares e códigos em sites, empresas especializadas captam milhares de unidades de informação conhecidas como “dados biométricos de comportamento” que ajudam a comprovar se um usuário digital é realmente quem diz ser.
Para encarregados de segurança cibernética, a tecnologia é uma arma poderosa. Grandes furtos de dados são ocorrências quase diárias. Piratas cibernéticos obtêm, assim, bilhões de senhas e outras informações pessoais estratégicas de clientes de bancos e de lojas, que podem ser usados para roubar dinheiro ou fazer compras fraudulentas.
“Identidade é a mais recente moeda digital e vem sendo furtada em escala industrial”, disse Alisdair Faulkner, um dos fundadores da ThreatMetrix, que faz softwares detetores de fraude para grandes empresas comerciais e financeiras. Muitos clientes da Threat estão usando ou testando ferramentas baseadas em biometria de comportamento.
Órgãos defensores da privacidade, por outro lado, veem as ferramentas biométricas como potencialmente ameaçadoras, em parte porque poucas das empresas que se servem delas revelam a seus clientes quando e como seus teclados estão sendo monitorado.
“Quanto mais dados são coletados com essa tecnologia, mais usos vão ser encontrados para elas”, disse Jennifer Lynch, advogada da Electronic Frontier Foundation, organização de defesa de direitos digitais. “Entre usar a tecnologia para detectar fraudes e usá-la para coletar informações privadas é um pulo.”
Aplicação
O BRE (Banco Real da Escócia), um dos poucos que falam publicamente de seus bancos de dados biométricos de comportamento, começou a testar a tecnologia há dois anos, em contas privadas de seus clientes mais ricos. Está agora ampliando o uso do sistema para todos os 18,7 milhões de contas comerciais e de varejo, segundo Kevin Hanley, diretor de inovação do banco.
Quando os clientes do BRE se logam em suas contas, o software começa a gravar mais de 2 mil gestos interativos diferentes. Nos celulares, o software mede o ângulo em que as pessoas seguram o equipamento, os dedos que usam para discar, a pressão que aplicam e quão rápido deslizam os dedos pela tela. Nos computadores, são registrados o ritmo e a intensidade da teclagem e o modo como o usuário maneja o mouse.
O BRE usa um software desenhado por uma pequena empresa de Nova York chamada BioCatch. O software traça um perfil dos gestos de cada pessoa, que é comparado aos movimentos dos clientes a cada vez que eles acessam a conta. O sistema consegue detectar impostores com uma precisão de 99%, segundo a BioCatch.
Poucos meses atrás,o software detectou sinais pouco usuais vindos da conta de um cliente rico. Após se logar, o impostor usou a rodinha de rolagem do mouse para navegar – algo que o cliente nunca havia feito. Em seguida, o impostor teclou na faixa numérica do alto de um teclado, não nos números laterais que o dono da conta usava tipicamente.
Sinais de alerta foram emitidos
O sistema do BRE bloqueou a conta. Uma investigação posterior constatou que o cliente havia sido hackeado. “Alguém estava tentando criar um novo beneficiário e transferir para ele uma soma de sete dígitos”, informou o especialista. “Intervindo a tempo, abortamos o golpe”, disse Hanley.
O caso em questão foge do padrão. O comportamento dos usuários geralmente não é tão constante. As pessoas agem de modo diferente quando estão cansadas, doentes, sob o efeito de álcool, distraídas ou com pressa. O jeito com que alguém tecla no computador do escritório não é o mesmo com que tecla no laptop sentado no sofá de casa.
A BioCatch ocasionalmente tenta provocar uma reação do cliente. Ela pode por exemplo acelerar o acesso no celular a dados como a data e a hora, ou fazer o cursor do mouse desaparecer por uma fração de segundo da tela do computador.
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